SOBRE A LIMPEZA DAS PEÇAS.

Dúvidas relacionadas com estados de conservação de moedas

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doliveirarod
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SOBRE A LIMPEZA DAS PEÇAS.

Mensagempor doliveirarod » quarta jan 09, 2008 4:36 am

Ficam aqui no inamovível, devido a grande discussão que sempre provoca o tema, algumas dicas para os principiantes a respeito de limpeza das moedas. Como se poderá constatar aqui, a regra de ouro é não limpar, e apenas quando realmente necessário, limpar da forma correcta.

1 - A regra geral
A regra a ser aplicada na maioria dos casos é essa: Não limpe as moedas. Uma limpeza desastrada ou mal feita ocasionará a desvalorização ou mesmo a inutilização da peça, e nunca fará a moeda subir em conservação ou preço. Limpezas mal feitas poderão também estragar pátinas que levaram anos a se formar, e que valorizam a moeda, não só no seu aspecto estético, mas também no seu valor comercial, deixando-as mais atraentes.

2 - Pátinas:
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Escurecimento natural do metal, decorrente da ação do tempo e de fatores orgânicos, como a exposição aos variados tipos de solo, ao oxigênio, ou mesmo ao manuseio em épocas passadas.
As pátinas variam nas tonalidades. Nas pratas, como na foto acima, podem tomar tons cinzentos, cinza-azulados, castanhos ou mesmo enegrecidos.
Como já foi dito, valorizam estéticamente as peças. Uma peça com uma pátina bonita será mais procurada e valorizada que a mesma peça limpa.

A pátina autêntica é a que decorre naturalmente e com o decorrer dos anos. Pátinas artificiais e falsas não irão valorizar a moeda, são criadas para "enganar" e não passam de lixo encima da peça. As pátinas falsas podem e devem ser removidas.

As pátinas naturais como as expostas na foto não devem ser removidas em hipótese! Retirá-las é causar um dano estético a peça, para não falar em desvalorização comercial, pois a moeda perderá um "plus" que tinha a mais.

As tonalidades são observadas sobretudo nas pratas e nos cobres.

A pátina que valoriza a peça é a uniforme. Quanto mais uniforme for a tonalidade, mais perfeita é a tonalidade estéticamente.

3 - Pátinas X sujidades agregadas.

A boa pátina não se confunde com a mera sujeira agregada. Além da tonalidade, as moedas com o decorrer da circulação ou do contacto com a terra e sais minerais poderá adquirir crostas e sujeira agregada. A circulação da moeda proporcionou contacto com mãos e substâncias diversas, que podem ter deixado rastros de gordura com sujeiras agregadas no decorrer do tempo. Manchas de gordura velha e crostas disformes não vão valorizar a moeda, e quando em contacto com a humidade podem levar até mesmo a danos. Nesses casos pode ( e as vezes deve) haver a remoção.
Exemplo:

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No caso dado, vemos que as peças (são pratas) não possuem uma tonalidade uniforme que valha a pena ser preservada, havendo crostas de sujeira negra, agarrada principalmente entre as letras. Essas crostas provavelmente são decorrentes de sujeira e terra agregadas em gordura posteriormente solidificada.

Após a remoção (correcta) da sujeira, teremos:

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O que se observa na limpeza correcta é o total respeito à integridade da peça. A moeda deve manter sua originalidade, ou seja: Seu aspecto natural não pode ser adulterado. Riscos no espelhado, abrasões, moedas polidas com efeito "espelho" são moedas prejudicadas.
No exemplo dado, a remoção das crostas se deu sem que as peças fossem adulteradas, as características intrínsecas do metal e da cunhagem mantiveram-se sem modificações nem danos.
A valorização foi meramente estética.

4 - As pátinas nas moedas clássicas.

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Como podemos observar nas numismas apresentadas, nas peças clássicas gregas, romanas, medievais, etc... Vemos geralmente junto com a pátina outros sinais do tempo e da ação dos agentes químicos naturais. Aqui aparecem crostas decorrentes do contacto com o solo, já que são moedas encontradas quase sempre em escavações. estão presentes crostas bem grossas e solidificadas em algumas.
Essas peças não deverão ser limpas. Em mais de 90% desses casos o melhor a ser feito é simplesmente nada.

Tais peças são analisadas quanto a sua autenticidade também pela sua pátina e crostas agregadas. Muitas vezes remover crostas de moedas clássicas vai prejudicar a estética, pois além de remover junto a pátina original, pode deixar visíveis defeitos e corrosões que se encontravam embaixo, dando a moeda aspecto desagradável.

Tais moedas só deverão ser limpas em último caso, quando as crostas realmente impedirem a visualização da moeda, ou a corroerem ativamente. Isso deverá ser analisado caso a caso, por quem entende. Na dúvida a regra de ouro é nunca mexer para não danificar.

5 - Como limpar.

Observada a regra de ouro do "não limpar", e se constatando num segundo passo, que a peça realmente precisa de uma limpeza, seja por motivo estético ou para remover agentes corrosivos, o coleccionador deverá observar o método correcto, que como foi exposto, é aquele que não vai alterar a originalidade e a natureza da peça, ou seja: Os métodos correctos usam substâncias inócuas aos metais, não reagirão com eles. Materiais que causem reacções aos metais, levando-os a perder as suas características originais (como os polidores de metal ou abrasivos, por exemplo) são imediatamente descartados.

a) Para as moedas de prata de boa liga (pratas de liga rica, geralmente acima dos 0,500) podemos usar.

- Banho maria em solução de 1 parte de amoníaco para 2 partes de água. O amoníaco deve ser usado de preferência em um recipiente fechado, evitando sua evaporação, e manipulado em local arejado, pois é muito forte. Após o banho maria pode-se retirar a moeda e enxaguar. Com um pouco de pasta de dentes ou bicarbonato de sódio fino (do usado como medicação) molhado passado levemente vai se retirando o resto dos resíduos ainda grudados à moeda.

- Pasta de dentes. A pasta de dentes é inócua, pode ser usada para retirar gordura e manchas leves, como as manchas verdes provocadas pelo uso contínuo de folhas de PVC. Aplica-se diluída em água, de uma maneira muito leve, sem esfregaço.
Após, enxaguar bastante, para retirar todo o resíduo da pasta, e enxugar muito bem para evitar humidade.

- O Bicarbonato de Sódio. Pode ser usado, do tipo fino, humedecido em água, passado muito levemente na peça, para remoção de sujeiras leves, ou já bem amolecidas pelo amoníaco. Pode ser utilizado também o banho maria em água com bicarbonato.

b) Para as moedas de bolhão (prata baixa). Essas peças requerem mais cuidados, visto que tem metal nobre em quantidade reduzida, e o metal pobre contido nelas pode reagir a uma limpeza mal feita, o que pode ocasionar mal aspecto de corrosão ou escurecimento.

- Pode ser usado o banho maria em água com bicarbonato de sódio, após, com o amolecimento da sujeira, passa-se o bicarbonato molhado ou a pasta de dentes, secando bem em seguida.

- Bicarbonato de sódio. Vide acima.

- Pasta de dentes. Vide acima.

- O Gasóleo. É o óleo combustivel. Não reage com os metais, nem costuma danificar as pátinas. Pode ser usado em banhos maria, com posterior escovação com escova de dentes de cerdas plásticas. Após, secar bem para retirar o vestígio do óleo. Para remover esses resquícios de óleo, pode ser usado um papel absorvente com acetona pura, substância muito volátil, que se evaporará rapidamente após o processo.

c) As moedas de níquel.

- No geral o que foi dito as pratas de boa liga pode ser aplicado aos níqueis.

d) As moedas de cobre e bronze. São as mais complicadas, o cobre e o bronze podem ter reacções com várias substâncias, e podem adquirir colorações desagradáveis e não naturais quando as peças não forem limpas adequadamente.

- Recomendo o uso do gasóleo em banho maria, com posterior utilização da escova de dentes. Pode ser utilizado o palito de dentes de madeira macia, com a moeda ainda humida no óleo, para ajudar a remover crostas em pontos mais difíceis.

- O bicarbonato e a pasta podem ser usados.

- Existem no mercado substâncias como o Ren Wax, indicado para remover crostas grossas que impedem a visualização, principalmente na numária clássica.

- Há também o método da electrólise, mais difícil e sendo necessário um conhecimento maior a respeito.

6 - O que nunca utilizar.

Certas substâncias e utensílios devem ser evitados a todo custo numa limpeza eficiente, eles podem causar danos irreversíveis às moedas, e não podem ser utilizados em hipótese:

- Escovas metálicas - Podem causar riscos (os "risquinhos" de polimento) no espelhado, dando um aspecto polido desagradável e artificial.

- Lã de aço. Literalmente destruirá a moeda, deixando o campo da mesma totalmente riscado, e causa também o desgaste do relevo.

- Polidores de metais. Além de serem abrasivos (vão apagando as figuras em relevo), dão um polimento artificial que condena a moeda, acabando com sua originalidade e naturalidade. A moeda ficará com um aspecto de "espelho" que nunca teve em consições normais de cunhagem.

- Instrumentos pontiagudos. As vezes usados para remover crostas, como os instrumentos de dentista. Podem deixar sérios riscos nas peças, desvalorizando muito.

- Substâncias ativas. Ácidos, ou quaisquer outras substâncias que reajam com o metal em questão, atacando-o e alterando suas características naturais.

7 - Sobre as moedas com acabamento "proof":

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Moedas modernas, com acabamento especial contrastado em prata fosca e prata polida. A regra como sempre é não mexer, mas havendo necessidade há de se ter um cuidado especial, pois a superfície polida é muito susceptível de ser danificada. Não se recomenda nada além dos banhos (seja de água com amoníaco ou bicarbonato), com uma posterior enxague e secagem, de preferencia com secador, já que até mesmo um pano grosso friccionado pode acabar por riscar o espelhado da peça.

8 - Sobre o bom acondicionamento.

O bom acondicionamento vai proteger a moeda da humidade, do manuseio e de danos macânicos, bem como mantém longe agentes e substâncias nocivas.

a) Alvéolos. São indicados os feitos de milar, plástico que não contém PVC na composição da película. Protegem as peças da humidade e do manuseio, além de proteger as pátinas. Entretanto, procurem as marcas que não usam PVC na fabricação da película, geralmente são as melhores marcas do mercado. Evita-se alvéolos de "fundo de quintal" e chineses.

b) Albuns e envelopes de PVC. Não são muito indicados. O PVC com o passar do tempo começa a se degradar, e a segregar substâncias corrosivas, bem como a acumular humidade. Daí vemos frequentemente moedas guardadas há alguns anos dentro de albuns de PVC que ficam manchadas com uma substância verde oleosa (pode ser retirada com gasóleo ou bicarbonato).
Essa substância além de dar aspecto desagradável às pratas, pode com o passar do tempo danificar as moedas de metais comuns, como níquel ou cobre.

c) Envelopes de papel. Os mais comuns são os envelopes brancos. Ocorre que esses envelopes são alvejados através de processos químicos, e com o tempo o papel começa a se acidificar, em decorrência da decomposição das substâncias utilizadas no branqueamento. O resultado é a corrosão a longo prazo das moedas de metal não nobre, e o escurecimento artificial das pratas.
O envelope mais indicado seria o de papel neutro, não alvejado, como o papel madeira, por exemplo:

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Esse tipo de papel não se acidifica com o tempo, deixando as numismas bem acondicionadas.

d) Cápsulas de acrílico. Muito indicadas, protegem da humidade, manuseio e danos físicos. O único inconveniente são os poucos tamanhos disponíveis, bem como o espaço que ocupam.

e) Medalheiros. Muito indicados, além de serem geralmente seguros permitem que as moedas patinem com o passar do tempo.

Para informações adicionais sobre o tema vide:
http://forum-numismatica.com/viewtopic.php?t=13124
Última edição por doliveirarod em quinta jan 10, 2008 3:45 pm, editado 1 vez no total.
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André Nogueira
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Mensagempor André Nogueira » quarta jan 09, 2008 8:05 pm

Parabéns pelo tópico!!

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Darius
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Mensagempor Darius » quarta jan 09, 2008 9:30 pm

Fantastico!!

sotero
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Mensagempor sotero » sexta jan 11, 2008 1:23 pm

Podem sempre ver mais opiniões, processos, etc, sintetizados aqui!
Sotero

bdias
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Contacto:

Mensagempor bdias » quarta fev 13, 2008 12:51 am

Obrigado pelas dicas

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nht
Escudinho da II República
Mensagens: 15
Registado: domingo nov 07, 2004 6:17 pm
Localização: Chaves

Re: SOBRE A LIMPEZA DAS PEÇAS.

Mensagempor nht » sexta abr 04, 2008 10:26 am

Excelente Informação !

Obrigado ! :Spt
Um abraço,
Nuno Tomé

repex
Escudinho da II República
Mensagens: 20
Registado: segunda mar 03, 2008 3:04 pm

Re: SOBRE A LIMPEZA DAS PEÇAS.

Mensagempor repex » terça abr 08, 2008 1:43 am

Muito bom, obrigado :D

samu
Sou só um euro caloiro
Mensagens: 1
Registado: terça abr 29, 2008 4:06 pm

Re: SOBRE A LIMPEZA DAS PEÇAS.

Mensagempor samu » terça abr 29, 2008 5:07 pm

Boas!! (sou um novato)

gosto de colencionar e tenho muitas moedas portuguesas e estrageiras.. (e ganhei algumas moedas de um parente) tenho moedas da monarquia portuguesa algumas em bom estado outras nao muito visiveis em mau estado (culpa minha, nao as tratei bem).. (eu nao percebo muito de moedas e valores) tenho moedas desde 1834, 1883, etc.. gostava de as limpar e vou seguir o concelho que li neste topico como as limpar mas tenho receo de as estragar... acham que as devo limpar todas?? se as limpar todas, estraga o valor delas?? ou devo as levar alguem que me as limpe??

oivolf
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Re: SOBRE A LIMPEZA DAS PEÇAS.

Mensagempor oivolf » terça abr 29, 2008 5:57 pm

Tópico excelente :biggthumpup:



Flávio
Flávio

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AOLIVEIRA
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Re: SOBRE A LIMPEZA DAS PEÇAS.

Mensagempor AOLIVEIRA » quarta jun 04, 2008 11:27 am

Tópico excelente e esclarecedor. Obrigado por partilha-lo connosco. ;)


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