Caro Jorge Silva, não somente isso, como muitas pessoas confundem as condições de fabrico reflectidas na moeda com estados de conservação.
Essa confusão vê-se todos os dias e não somente da parte de amadores como de profissionais.
Constatei ao longo do tempo que infelizmente a maior parte dos profissionais que conheço pessoalmente ou que vejo em sites de vendas diretas ou leilões (não todos como é óbvio, ainda os há que são muito bons) sabem normalmente muito das condições de mercado, o que é sem dúvida muito útil para eles, mas quase nada de Numismática.
Em Portugal ainda há uma longa estrada a percorrer neste domínio como noutros, por comparação com o elevado nível de muitas Casas estrangeiras. Vamos a ver se esse caminho é percorrido ou não no sentido do conhecimento e da qualificação. E para isso não basta que "já lhe tenham passado pelas mãos milhares de moedas", como já ouvi dizer a muito mais do que um, mas sim que essa pessoa evolua, aprenda e ganhe qualidade como Numismata, o que não é de todo a mesma coisa.
Em meu entender as moedas todas sem excluir nenhuma mesmo as as Antigas (romanas p. ex.) devem ser catalogadas segundo uma
classificação mista que envolve duas vertentes:
o fabrico e a conservação.
Assim, a classificação de uma moeda grega ou romana segundo a conservação utiliza os mesmos critérios exactamente e sem mudar uma vírgula tal como outra moeda que tenha sido cunhada ontem.
Os critérios da conservação são imutáveis para qualquer moeda. Se uma moeda romana "parece ter sido cunhada ontem", isso permitirá atribuir-lhe uma classificação que terá em conta isso mesmo de acordo com a tabela de classificação, mas se apenas for "uma moeda excelente" devem ser procurados os defeitos e verificada a sua posição na tabela exectamente como a uma moeda de 500 réis de D. Maria II ou de 1.000$00 mais recente.
Mas
estes critérios são completamente independentes da análise feita segundo o fabrico.
Assim, uma moeda chinesa da dinastia Qing pode ter simultaneamente chochos de má fundição, rebarbas de falta de acabamento do bordo e sulcos da lima por não ter sido polida, e ter um estado de conservação "Almost Uncirculated / AU-58 / Full detail with only slight friction on the high points".
Ou então uma moeda medieval pode ter drescentramento numa ou em ambas as faces, ter uma cunhagem desigual (cunho apoiado em ângulo, do que resulta um dos lados da moeda estar bem cunhado e o outro lado quase imperceptível), um cunho rachado ou muito desgastado ou, o que também é muito frequente, os cunhos não terem sido completamente cheios com o metal do disco- consequência ou de pouco metal [disco fino] ou de fraca batida_ do que resultam pontos altos com pouca ou nenhuma definição. Uma moeda pode até reunir todas as imperfeições de fabrico de que falei e mais algumas, e no entanto nunca ter tido senão uma circulação mínima antes de cair à terra, e portanto encontrar-se nos mais elevados graus no tocante à conservação se tiver sido convenientemente tratada depois de achada.
Existe online pelo menos um auxiliar precioso que para o caso da moeda romana publicou com ilustrações apropriadas uma resenha dos casos mais frequentes dos diversos tipos de imperfeições que nos aparecem e a forma de as comunicar ou registar. O site é de Doug Smith, um excelente Numismata e um bom fotógrafo de moedas antigas:
http://www.forumancientcoins.com/dougsmith/grade.htmlEspecificamente quanto ao fabrico:
http://www.forumancientcoins.com/dougsmith/grade2.htmlUm exemplo notório: em muitas moedas da I República Portuguesa batidas para circular no Continente ou nas Colónias observam-se frequentemente diversas anomalias de batida e de cunho, sendo as mais frequentes as batidas fracas que não chegam a impressionar completamente o metal ou os cunhos muito cansados que chegam a perder detalhe ou a ter microfissuras, no entanto isso não prejudica a sua conservação. Chegam a ter o brilho da chamada "flor do cunho" e no entanto terem poucos detalhes nos pontos mais altos.
POR ISSO é que a classificação americana reflecte a possibilidade de pouca qualidade da batida até ao grau "Mint/ Proof State"
inclusive. Assim, até ao grau "Mint/Proof State / MS/PR-63 / Moderate number/size marks/hairlines, strike may not be full" é admitida a possibilidade da moeda não ter uma batida perfeita, condição que está excluída para os graus superiores. Isso é consequência do facto da atribuição dum grau superior a esse depender em grande medida da presença de imperfeições que são impossíveis de detectar com uma batida mais fraca, o que justifica a consideração de um atributo que é do "fabrico" e não da "conservação" numa classificação deste último tipo.
Devo dizer além disso que os Norte Americanos dispoem de estudos extensivos e pormenorizados moeda a moeda acerca dos pontos susceptíveis de maior abrasão, dos pontos onde deve procurar-se o defeito x ou y, dos limites para além dos quais já não pode considerar-se a classificação A para passar a ser a B, etc. Estudos que inclusivamente estão disponíveis gratuitamente online sob a forma de livro (normalmente em sites associados a casas que fazem classificações profissionalmente). Ver aqui um exemplo muito bom, atenção tem muitas páginas, têm de se procurar todos os links e sublinks:
http://www.coingrading.com/Para a nossa Numária a 4ª Dinastia ou Republicana um manual deste tipo seria perfeitamente possível e mesmo acessível, mas não existe. Todos temos um pouco a culpa disso.
Por fim, continuo a defender desde há anos que as descrições que habitualmente se fazem das moedas de cunhagem ou fundição manuais são dum modo geral imperfeitamente descritas, seja por ignorância pura e simples (doa a quem doer é 90 ou 95% dos casos) ou por preguiça. Quanto às moedas de cunhagem mecânica, deviam ser registadas as anomalias de cunhagem quando as há e também quando for o caso de batidas anormalmente boas.
Raramente se vêm descrições completas, mas a verdade é que de um modo geral as pessoas não exigem uma descrição tecnicamente correcta seja por parte de vendedores ou noutros casos. "Basta a fotografia"- que afirmação tão falsa! que esconde normalmente a ignorância mas por vezes também a manha.
É melhor parar por aqui, desculpem a extensão da mensagem.
Um abraço
Augusto Mouta