PORTUGAL - Quem guarda os nossos tesouros ?

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mrsilv1
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PORTUGAL - Quem guarda os nossos tesouros ?

#1 Mensagem por mrsilv1 » segunda jul 18, 2011 1:31 pm

Jornal Correio da Manhã - 17 Julho 2011

Quem guarda os nossos tesouros
Casas-fortes evitam roubo de documentos históricos, mas o crime organizado espreita

Quanto vale a bula ‘Manifestis Probatum' certidão do séc. XII que atesta o nascimento de Portugal? Ou o Tratado de Tordesilhas, que em 1494 dividiu o Mundo entre espanhóis e portugueses, hoje reconhecido pela Unesco como memória mundial? Estes são apenas dois dos documentos de extraordinário valor informativo e simbólico, inqualificável em termos monetários, que Portugal se orgulha de guardar nos arquivos centrais da Torre do Tombo, em Lisboa, mas preserva de olhares públicos.

O furto recente do Códice Calixtino, guia dos peregrinos datado do século XII que desapareceu da Catedral de Santiago de Compostela e cujo valor comercial pode rondar os cem milhões de euros, suscitou novos alertas sobre a segurança dos tesouros nacionais. "Nos últimos anos estas obras têm vindo a atrair redes internacionais de crime organizado e Portugal tem peças apetecíveis", nota a inspectora Teresa Esteves, da Brigada de Obras de Arte da Polícia Judiciária.

Oito casas-fortes

No interior da Torre do Tombo, oito casas-fortes, sistemas de videovigilância a funcionar 24 horas por dia e apertada segurança humana guardam a memória do País. "Temos 90 quilómetros de documentos, equivalente a uma estante entre Lisboa e Caldas da Rainha, e várias obras identificadas como tesouros nacionais", explica Silvestre Lacerda, director da casa. Com acesso particularmente controlado, esses documentos - entre os quais se encontram ‘O Livro das Aves', ‘O Apocalipse de Lorvão', os arquivos da Inquisição, a carta de Pêro Vaz de Caminha sobre o ‘achamento' do Brasil e a colecção do Corpo Cronológico (83 mil documentos diplomáticos dos séculos XII ao XVI) - estão catalogados como peças a salvar em caso de catástrofe e a preservar de qualquer tentativa de furto.

A segurança esteve na base da concepção do edifício, inaugurado há 20 anos e visitado por vários investigadores internacionais. Um estudo da European Arcadle Group detectou que grande parte dos furtos deste género de obras ocorre nas salas de leitura. Aconteceu em Santiago de Compostela e em vários países da Europa do Norte, alvo privilegiado destas redes. A Torre do Tombo reage ao perigo. "Seguiram-se critérios de preservação dos documentos e de apenas se aceder a eles em ambiente reservado. Evitar o contacto com a obra é fundamental e o que fazemos é digitalizar os documentos e disponibilizá-los apenas nesse formato. Temos disponíveis 8 milhões de imagens na internet. Mesmo em caso de grandes individualidades, estas são sempre acompanhadas e obrigadas a deixar objectos pessoais, como sacos e casacos, no exterior", adianta Silvestre Lacerda. "Não podemos desconfiar de todos, mas os furtos acontecem e o acesso aos tesouros nacionais tem de ser condicionado. Há cartões que identificam os movimentos desde que a porta se abre, além das câmaras instaladas em vários locais".

Jóias da coroa

Alvo de cobiça, o património português perdeu parte das jóias da coroa, furtadas em 2002 quando foram emprestadas para uma exposição em Haia, Holanda. Entre as peças mais valiosas, que nunca foram encontradas, estavam um anel de D. Miguel e dois diamantes em bruto. Nos anos 40 do século passado, 25 Códices Alcobacenses, iluminuras, manuscritos, incunábulos (primeiras edições impressas), livros de horas, de música e de missa, gravuras e peças de numismática foram desviadas pelo então chefe das Secções de Reservados e de Numismática da Biblioteca Nacional. Detectado o autor do roubo - pessoa até então acima de qualquer suspeita -, algumas obras foram interceptadas em antiquários e alfarrabistas, mas muitas tinham sido fragmentadas e vendidas à peça, o que prejudicou o seu valor histórico.

Menos bem sucedida foi a tentativa de roubo, em 2006, da Custódia da Sé de Lisboa, peça de arte em ouro com mais de 4 mil pedras preciosas, cujos ladrões "foram apanhados em flagrante pela polícia, após denúncia de um eventual comprador", explica Teresa Esteves.

Apesar destas peças, pela sua raridade, serem facilmente detectáveis quando chegam ao mercado e, por isso, adquiridas por coleccionadores reservados e previamente dispostos a tal, o perfil do autor do roubo está mais ou menos identificado. "A maior parte dos furtos ocorre em salas de leitura e muitas dessas pessoas identificam-se como investigadores, procuram documentos e tentam detectar as fragilidades dos vários locais por onde passam", explica Maria Inês Cordeiro, subdirectora da Biblioteca Nacional.

Há cerca de dois anos, o roubo em Espanha de gravuras e mapas em incunábulos alertou para a existência de rotas criminosas encabeçadas por indivíduos especializados em Arte e História. "A mesma pessoa esteve em Portugal, nomeadamente na Biblioteca Nacional, apresentou-se como investigador de uma universidade, mostrando papéis falsos. Quando detectamos esse perfil, alguém desconhecido, que tem pouco tempo e vem à pressa consultar documentos raros, ficamos mais atentos e mantemos sempre a vigilância física", adianta Lígia Martins, chefe da divisão de Reservados daquela organização.

Mais procura

O furto de obras e documentos históricos aumentou nos últimos dez anos, abrangendo "peças que não são tradicionalmente material de arquivo, como mapas, autógrafos e também peças iconográficas, com desenhos, o que é mais apetecível pelo coleccionador", adianta Silvestre Lacerda.

Do ponto de vista comercial, estes documentos são adquiridos por pessoas que possuem uma apetência rara por objectos históricos e dispõem de folga financeira para não perspectivar nova venda em mercado, alerta Teresa Esteves. No entanto, a informação neles contida pode ter outra rentabilidade e, à semelhança do que mostram os filmes e livros de ficção, a decifração de códigos em textos históricos pode revelar tesouros escondidos. "O interesse acrescido por mapas de determinada época indicia a tentativa de identificar as alterações nas costas marítimas para detectar eventuais achados arqueológicos", destaca a inspectora da Polícia Judiciária. Por outro lado, muitas destas obras podem ter valor de prova. "Possuímos um mapa do século XVI, de Teixeira Albernaz, que tem indicação dos habitantes à época de umas ilhas em particular que estão neste momento a ser disputadas pela China e o Vietname. Provavelmente será uma das peças levada a tribunal como valor de prova", diz Silvestre Lacerda.

Trancas na porta

Apesar de Portugal ter escapado aos roubos históricos recentes, há um cuidado acrescido em preservar a História. A actual casa Torre do Tombo, instituição que data do século XIV, foi construída para resistir a catástrofes. "A casa-forte central responde em situação de sismo e parte do edifício, construído em T, desmorona e protege essa zona, à semelhança do que aconteceu no terramoto de 1755, quando uma zona do castelo de S. Jorge ruiu, abafando e protegendo do incêndio parte significativa do arquivo nacional", refere o director da instituição, que tem no restauro e recuperação de documentos outra das prioridades.

Acompanhar os leilões e recuperar as peças raras ainda dispersas por colecções particulares é uma das missões da Biblioteca Nacional, onde mais de metade dos nove milhões investidos nas obras que estão a decorrer foram canalizados para a segurança. "Construímos uma casa-forte para os tesouros da biblioteca [em que se inclui uma rara Bíblia Hebraica do séc. XIII] com tectos, paredes e chão em cimento e ferro e uma galeria a toda a volta que permite vigilância em todos os pontos".

A Biblioteca Nacional, em Lisboa, guarda uma cópia do Códice Calixtino, cuja autoria é atribuída ao Papa Calixto II. Datada de 1175, esta versão mais modesta obedece ao mesmo texto, mas não inclui as páginas dedicadas à música e possui menos iluminuras, explica Teresa Duarte Ferreira, responsável pela área de manuscritos. A obra pertencia à Livraria da Ordem de Alcobaça e não está acessível a consulta pública.

******************

Acho muito louvável a preservação do acervo histórico de um país, todavia deixa-los inacessíveis a visualização pública, é no mínimo falta de descentralização de cultura e conhecimento. Estamos guardando essas raridades para quem ? Qual valor tem uma carta escrita no século XII ou uma double eagle 33, que estão na escuridão de uma gaveta, trancada à 7 chaves ?

Na minha modesta e humilde opinião, deveriam realizar amostras, colocando-as em um museu e utilizando alguma redoma de vidro, com sistema de segurança que impeça os temidos roubos, mas definitivamente não podem deixar de lançar aos nossos olhos essas obras de estimado valor histórico.


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anonimou
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Re: PORTUGAL - Quem guarda os nossos tesouros ?

#2 Mensagem por anonimou » segunda jul 18, 2011 6:27 pm

Já agora onde está guardado os Lusíadas?
Cumprimentos,
Délio Pontes

gcz
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Re: PORTUGAL - Quem guarda os nossos tesouros ?

#3 Mensagem por gcz » segunda jul 18, 2011 9:05 pm

anonimou Escreveu:Já agora onde está guardado os Lusíadas?
Até onde sei o manuscrito original perdeu-se há séculos.

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brunodias
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Re: PORTUGAL - Quem guarda os nossos tesouros ?

#4 Mensagem por brunodias » terça jul 19, 2011 2:08 pm

gcz Escreveu:
anonimou Escreveu:Já agora onde está guardado os Lusíadas?
Até onde sei o manuscrito original perdeu-se há séculos.
Em tempos li alguma coisa sobre um exemplar da primeira edição que estava num cofre climatizado num dos arquipélagos (não sei se nos Açores se na Madeira).
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Re: PORTUGAL - Quem guarda os nossos tesouros ?

#5 Mensagem por Antonio Correia » terça jul 19, 2011 7:04 pm

Já agora deixo aqui a Manifestis Probatum - ( bula emitida pelo Papa Alexandre III, em 1179, que declarou o Condado Portucalense independente do Reino de Leão)

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Re: PORTUGAL - Quem guarda os nossos tesouros ?

#6 Mensagem por Antonio Correia » terça jul 19, 2011 7:14 pm

Segundo esta noticia existe um exemplar da primeira edição e dá conta de um recente restauro da mesma.
http://videos.sapo.pt/4fcceDH8aPQqNWnWc1oH
Antonio Correia.

gcz
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Re: PORTUGAL - Quem guarda os nossos tesouros ?

#7 Mensagem por gcz » terça jul 19, 2011 9:02 pm

Sim, exemplares da primeira edição impressa existem mesmo muitos em Portugal, incluíndo os da BN em Lisboa, o de Mafra, e o de Coimbra. E muitos outros em bibliotecas nacionais e universidades espalhados pelo mundo. Talvez ainda havam alguns em mãos privadas cá por Portugal, não sei. Uma compilaçao de primeiras edições xistentes feita nos anos 70 lista:

Academia das Ciências de Lisboa
Biblioteca José Mindlin, São Paulo (E)
Biblioteca José Mindlin, São Paulo (Ee)
Biblioteca Nacional, Lisboa 1P
Biblioteca Nacional, Lisboa 2P
Biblioteca Nacional, Lisboa 3P
Biblioteca Nacional, Lisboa 4P
Biblioteca Nacional, Madrid R-14207
Biblioteca Nacional, Madrid R-14208
Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro
Biblioteca Nazionale, Napoli
Bibliothèque nationale de France Yg. 74
Bodleian Library, University of Oxford Antiq.E.P.1572.1
Bosch Brazilian Library, Stuttgart
British Library C.30.E.34
British Library G.11285
British Library G.11286
Casa De Bragança, Vila Viçosa (E)
Casa De Bragança, Vila Viçosa (Ee)
Harry Ransom Humanities Research Center, University of Texas at Austin
Harvard University Port 5215.72
Harvard University Port 5215.72.5
Harvard University Port 5215.72.7
Harvard University Port 5218.72.3
Hispanic Society of America, New York
John Carter Brown Library, Brown University, Providence
Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro
Theophilo Braga, Fac-simile, 1898
Universidade de Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade
Academia Brasileira de Letras
Ateneu Comercial do Porto
Bibliothèque nationale de France Yg. 38
Lello & Irmãos, 1939
Sociedade Martins Sarmento (Guimarães)

É engraçadoque é frequente as bibliotecas das universidades, a que normalmente não se liga muto, terem primeiras edições raras de livros antigos.

Luís B.
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Re: PORTUGAL - Quem guarda os nossos tesouros ?

#8 Mensagem por Luís B. » terça jul 19, 2011 10:28 pm

ao amigo mrsilv1:

nem todos os sistemas de segurança impedem os roubos, veja o que aconteceu com as nossas jóias da coroa na Holanda...

sou um fervoroso defensor da politica actual: preservar, preservar, preservar! e com isso se impede exposição pública de certas obras, ora ainda bem!!!

NÃO SE BRINCA COM A MEMÓRIA COLECTIVA DE UM POVO!!! E esses Tesouros nacionais são isso mesmo: a nossa memória! O desaparecimento desses documentos únicos seria quase equivalente a perdermos a nossa língua, o nosso território, enfim, aquilo que nos define enquanto povo, enquanto estado-nação, único com muitos séculos de história. Nenhum outro país se pode orgulhar disso! Veja-se a Espanha que é uma manta de retalhos e que não existe enquanto estado-nação como nós!!!
CARPE DIEM

Luís

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Re: PORTUGAL - Quem guarda os nossos tesouros ?

#9 Mensagem por mrsilv1 » sexta jul 22, 2011 12:44 pm

Luís B. Escreveu: sou um fervoroso defensor da politica actual: preservar, preservar, preservar! e com isso se impede exposição pública de certas obras, ora ainda bem!!!
Estimado Amigo Luís B., eu concordo em número, gênero e grau com respeito ao seu comentário, SIM ! há que se preservar sempre a memória/história da formação de um povo, afinal suas glórias, conquistas e desenvolvimento, devem ser legadas por toda a eternidade, todavia na minha humilde e sincera opinião, impedir a exposição publica é cercear o direito do conhecimento, da curiosidade, do descobrimento !
"o que seria da Mona Lisa, se estivesse fadada à guarda, dentro de um caixote num depósito submerso de um grande banco" ?
Por ser um ferrenho defensor dos Museus, afinal eles agregam (para mim) cultura e conhecimento, acredito, como já o disse, que não há o que se "esconder", ou guardar, mas sim, mostrar com orgulho à todas as gerações !

grande abraço !
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Re: PORTUGAL - Quem guarda os nossos tesouros ?

#10 Mensagem por Alberto Paashaus » sexta jul 22, 2011 1:07 pm

Tive a oportunidade de ler os Lusíadas na sua primeira edição quando aí estive morando em Portugal, um dos poucos exemplares em coleção privada conhecidos:

Imagem
Ajudem-me a recuperar minhas moedas furtadas por algum funcionário dos vergonhosos e mal administrados Correios do Brasil. Agradeço!

Link para as moedas:

viewtopic.php?f=51&t=42341


Alberto Paashaus

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