Dúvidas sobre os CRUZADOS.

Moedas cunhadas desde D.Afonso I até D.Pedro P.Regente

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numismatica_bentes
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Dúvidas sobre os CRUZADOS.

#1 Mensagem por numismatica_bentes » sexta jun 03, 2011 12:45 pm

Peço aos foristas portugueses que me ajudem em uma questão de pura terminologia.

Vou usar como exemplo, o 4 CRUZADOS da terceira dinastia (Filipes).

Em alguns catálogos, essa moeda vem tratada com esse nome (MOEDA). Em outros, como por exemplo, o Gomes, é tratada como 4 CRUZADOS.
Ao que me consta, o nome CRUZADO, se refere à CRUZ DE SÃO JORGE que consta nessas moedas, cunhadas pela primeira vez por D. Afonso V, durante a tentativa de organizar uma CRUZADA contra os turcos em Constantinopla. Isso persiste até D. João IV, com o catálogo Gomes tratando-a como 4 CRUZADOS.

Em D. Afonso VI ainda aparecem os mesmos cruzados da lei anterior. Porém, aparecem também a série das moedas (MOEDA, MEIA MOEDA e UM QUARTO DE MOEDA), agora com a CRUZ DA ORDEM DE CRISTO, no lugar da anterior de São Jorge.

Nos catálogos brasileiros, quando o assunto é carimbo coroado de ouro, os autores referem à sua aplicação sobre estas moedas tratando os termos como sinônimos (4 CRUZADOS = MOEDA). Exemplo: Carimbo 4 coroado sobre MOEDA ou 4 CRUZADOS.

As perguntas que gostaria de fazer são:

1.Podemos chamar o 4 CRUZADOS de Filipe I, por exemplo, de MOEDA?

2. Podemos chamar de 4 CRUZADOS, a MOEDA de D. Afonso VI, agora com a CRUZ DA ORDEM DE CRISTO no lugar da CRUZ de SÃO JORGE?

3. Se são a mesma coisa, por que então o catálogo do Gomes faz essa diferenciação, usando 4 CRUZADOS até a cunhagem de 1660 de D. Afonso VI e o nome MOEDA, a partir da Lei de Outubro de 1663?

4. Se não são a mesma coisa (4 CRUZADOS e MOEDA) por que então, no levantamento de 1663, D.Afonso VI se refere aos 4 CRUZADOS, que deveriam receber o carimbo 4 coroado em conformidade com seu Alvará, usando o nome MOEDA?

Desde já agradeço aos que colaborarem ou puderem tirar essa dúvida.

Bentes



MCarvalho
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Re: Dúvidas sobre os CRUZADOS.

#2 Mensagem por MCarvalho » sexta jun 03, 2011 3:51 pm

Viva,

o termo cruzado, designa mais que uma moeda, ou melhor, acompanhou a designação da mesma moeda, mas com alguma deflação ao longo dos séculos.


Tal como refere, o cruzado de ouro, foi batido originalmente, segundo o cronista Rui de Pina, por D. Afonso V, a partir de 1457, para financiar a expedição a Cruzada apelada pelo papa Calisto III, em 1455. Originalmente, esses cruzados valiam 353 reais brancos e ostentavam, na verdade, a cruz equilátera de São Jorge.

No entanto, logo em 1460 (Lei de 22 de Agosto), estas mesmas peças foram desvalorizados para 255 reais. Em 1472 (Lei de 16 de Setembro), passaram a valer 324 reais (o real a que nos referimos é, daqui em diante, sempre o real branco, que esteve em vigor até Maio de 1911).

D. João II manteve a mesma tipologia (com a cruz de São Jorge) e o mesmo valor do cruzado: 324 reais, contudo, D. Manuel I, apesar de manter a tipologia do cruzado, aparentemente, no início do século XVI, eram chamados de Afonsos de Ouro, por remontarem ao tempo de Afonso V (ver T. de Aragão, 2.ª ed., pág. 252). D. Manuel, nas cortes de 1498, subiu o valor do cruzado para 390 reais, e, mais tarde, por lei de 1517, passaram a valer 400 reais. (nota: não prestar atenção aos valores apresentados por Alberto Gomes para o reinado de D. Manuel - 300 reais -, é uma gralha ou lapso do autor, os valores apresentados nas cortes de 1498 e na lei de 1517 são, respectivamente, os 390 e os 400 reais para o cruzado, e é isso que conta).

Em termos práticos, durante o final do reinado de D. Manuel I e durante o reinado de D. João III, o valor do cruzado oficialmente era de 400 reais, mas nos momentos de escassez, eram trocados por 410 reais (era a taxa de câmbio popular, para quem quisesse trocar ouro ou até prata pelo ouro do cruzado).

D. João III manteve, no início do reinado, as mesmas disposições de 1517 (do tempo do pai), mas a partir de 1538 desvalorizou o toque do cruzado (de 989,6 milésimas para 942,6 milésimas, 22 5/8 quilates e 22 1/8 quilates, respectivamente), mantendo o valor nominal de 400 reais. Os cruzados de 1538, mantinham a cruz de São Jorge, mas começaram a ostentar no reverso a legenda que viria a ser célebre "IN HOC SIGNO VINCES"; depois de 1538 (não tenho legislação precisa, mas segundo Aragão na ob. citada, pág. 267, lei apresentada por Gomes, de 1594, será outro erro) começaram a bater-se os cruzados com a cruz do calvário, de toque inferior, mas mantendo os 400 reais.

Continuamos a falar da mesma moeda, embora com outra tipologia, com outro toque, mas com o valor dos mesmos 400 reais.

D. Sebastião, D. Henrique e os Governadores, não bateram cruzados (moeda de 400 reais), introduzindo nova moeda de ouro, os 500 reais, com a Cruz de Cristo.

Ainda que irregularmente, D. António, começou a bater o primeiro cruzado de prata, depois de 1580, com a tipologia que viria a ser usada sensivelmente igual até a meados do século XIX, com as armas coroadas no anverso e com a Cruz de Cristo no reverso. A moeda valia, naturalmente, 400 reais.

Filipe I, por lei de 18 de Fevereiro de 1584, manda lavrar moedas segundo o padrão antigo, com os submúltiplos de 400 réis (com a Cruz de São Jorge): 4 cruzados, 2 cruzados e o cruzado.

Não consta na lei de 1584 a designação de Moeda para os 1600 réis ou 4 cruzados.

Mais tarde continuarei pelos reinados de D. João IV, D. Afonso VI e adiante. Neste momento não tenho tempo para prosseguir a explanação.

Abraço
MCarvalho

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numismatica_bentes
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Re: Dúvidas sobre os CRUZADOS.

#3 Mensagem por numismatica_bentes » sexta jun 03, 2011 3:58 pm

Ciao Mário !

Ok! Vou aguardar !

Obrigado por esse início.

SANCHO
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Re: Dúvidas sobre os CRUZADOS.

#4 Mensagem por SANCHO » sexta jun 03, 2011 8:32 pm

Curiosamente o termo "cruzado" perdurou na linguagem popular associado a 40 centavos principalmente no Norte do país.
Tal durou enquanto tiveram existencia fisica as moedinhas de 10 e 20 centavos ou seja até à revolução de 1974.
Até poucos anos antes e durante bastante tempo um cruzado era o preço de um pão.Uma "carcaça" no Sul,um "molete" no Norte.

zefer44
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Re: Dúvidas sobre os CRUZADOS.

#5 Mensagem por zefer44 » sábado jun 04, 2011 12:58 pm

Exatamente, com um cruzado ( 40 centavos ) a minha mãe comprava em 1955 o célebre "pão escuro" de 450 grs.

Não é que tenha saudades, ( a miséria, não deixa saudades a ninguém ) mas lembro-me perfeitamente...
Horácio Ferreira


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Re: Dúvidas sobre os CRUZADOS.

#6 Mensagem por numismatica_bentes » terça jun 14, 2011 9:34 am

MCarvalho Escreveu:Viva,

o termo cruzado, designa mais que uma moeda, ou melhor, acompanhou a designação da mesma moeda, mas com alguma deflação ao longo dos séculos.


Tal como refere, o cruzado de ouro, foi batido originalmente, segundo o cronista Rui de Pina, por D. Afonso V, a partir de 1457, para financiar a expedição a Cruzada apelada pelo papa Calisto III, em 1455. Originalmente, esses cruzados valiam 353 reais brancos e ostentavam, na verdade, a cruz equilátera de São Jorge.

No entanto, logo em 1460 (Lei de 22 de Agosto), estas mesmas peças foram desvalorizados para 255 reais. Em 1472 (Lei de 16 de Setembro), passaram a valer 324 reais (o real a que nos referimos é, daqui em diante, sempre o real branco, que esteve em vigor até Maio de 1911).

D. João II manteve a mesma tipologia (com a cruz de São Jorge) e o mesmo valor do cruzado: 324 reais, contudo, D. Manuel I, apesar de manter a tipologia do cruzado, aparentemente, no início do século XVI, eram chamados de Afonsos de Ouro, por remontarem ao tempo de Afonso V (ver T. de Aragão, 2.ª ed., pág. 252). D. Manuel, nas cortes de 1498, subiu o valor do cruzado para 390 reais, e, mais tarde, por lei de 1517, passaram a valer 400 reais. (nota: não prestar atenção aos valores apresentados por Alberto Gomes para o reinado de D. Manuel - 300 reais -, é uma gralha ou lapso do autor, os valores apresentados nas cortes de 1498 e na lei de 1517 são, respectivamente, os 390 e os 400 reais para o cruzado, e é isso que conta).

Em termos práticos, durante o final do reinado de D. Manuel I e durante o reinado de D. João III, o valor do cruzado oficialmente era de 400 reais, mas nos momentos de escassez, eram trocados por 410 reais (era a taxa de câmbio popular, para quem quisesse trocar ouro ou até prata pelo ouro do cruzado).

D. João III manteve, no início do reinado, as mesmas disposições de 1517 (do tempo do pai), mas a partir de 1538 desvalorizou o toque do cruzado (de 989,6 milésimas para 942,6 milésimas, 22 5/8 quilates e 22 1/8 quilates, respectivamente), mantendo o valor nominal de 400 reais. Os cruzados de 1538, mantinham a cruz de São Jorge, mas começaram a ostentar no reverso a legenda que viria a ser célebre "IN HOC SIGNO VINCES"; depois de 1538 (não tenho legislação precisa, mas segundo Aragão na ob. citada, pág. 267, lei apresentada por Gomes, de 1594, será outro erro) começaram a bater-se os cruzados com a cruz do calvário, de toque inferior, mas mantendo os 400 reais.

Continuamos a falar da mesma moeda, embora com outra tipologia, com outro toque, mas com o valor dos mesmos 400 reais.

D. Sebastião, D. Henrique e os Governadores, não bateram cruzados (moeda de 400 reais), introduzindo nova moeda de ouro, os 500 reais, com a Cruz de Cristo.

Ainda que irregularmente, D. António, começou a bater o primeiro cruzado de prata, depois de 1580, com a tipologia que viria a ser usada sensivelmente igual até a meados do século XIX, com as armas coroadas no anverso e com a Cruz de Cristo no reverso. A moeda valia, naturalmente 400 reais.

Filipe I, por lei de 18 de Fevereiro de 1584, manda lavrar moedas segundo o padrão antigo, com os submúltiplos de 400 réis (com a Cruz de São Jorge): 4 cruzados, 2 cruzados e o cruzado.

Não consta na lei de 1584 a designação de Moeda para os 1600 réis ou 4 cruzados.

Mais tarde continuarei pelos reinados de D. João IV, D. Afonso VI e adiante. Neste momento não tenho tempo para prosseguir a explanação.

Abraço
Ciao Mario !

Gostaria de obter sua autorização a fim de transcrever parte de seu texto no nosso catálogo. Apesar de modificado, a fonte original é sempre o texto acima, de sua autoria. Dessa forma, precisamos de sua autorização, mesmo que informal, para transcrever parte do que postou aqui. Basta somente dar um OK aqui mesmo no Fórum.

Obrigado.

MCarvalho
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Re: Dúvidas sobre os CRUZADOS.

#7 Mensagem por MCarvalho » sábado jul 23, 2011 5:44 pm

Continuando (finalmente que arranjei um tempinho para pegar nos livros).

Ainda durante o período de união dinástica, Filipe II de Portugal (III de Espanha) bate o cruzado de ouro com a cruz de São Jorge. O seu sucessor, Filipe III (IV de Espanha), preserva o mesmo padrão monetário. Não bateu moeda de um cruzado, mas cunhou os seus múltiplos, também em ouro: 2 cruzados e 4 cruzados.

Depois da Restauração da Independência, no final do ano de 1640, o novo monarca, D. João IV de Bragança, retoma a produção do cruzado de prata, introduzido de forma rebelde, por D. António, no final do século XVI.

O reinado de D. João IV caracterizou-se pelas dificuldades económicas decorrentes da Guerra da Restauração e das complicações inerentes à imposição de uma nova dinastia sem dinheiro.

Assim, o cruzado de prata de D. João IV (Lei 8 de Junho de 1643) foi cunhado a partir do reaproveitamento da moeda de prata que circulava à época, desde moeda estrangeira, até pratas dos reinados anteriores. O cruzado ostentava a Cruz de Cristo e tinha no anverso, lateralmente às armas reais, o valor facial de 400 réis.

A par do cruzado de prata, D. João IV mandou bater ainda os cruzados de ouro (Leis de 29 de Março e 25 de Abril de 1642) sobre os velhos cruzados filipinos (com cerca de 22 mm de módulo e 3,1 g de peso), contudo, o valor do cruzado de ouro foi inflacionado para 750 réis. Estas moedas recunhadas ostentam a Cruz de São Jorge e são já datadas (1642 e uma de 1647, que talvez seja um erro de interpretação do último algarismo) e todas as suas variantes são tidas como muito raras.

Os múltiplos dos cruzados de ouro de D. João IV (2 e 4 cruzados) seguem a mesma lei e tipo do cruzado de ouro e são também datados, quase todos de 1642, salvo umas séries mais tardias dos 4 cruzados (1645, 1646, 1647, 1648 e 1652).

A Lei de 29 de Fevereiro de 1644 decretou que os quatro cruzados cunhados anteriormente (no período filipino) fosse desvalorizado de 1600 réis para 3000 réis).

Ainda no final do reinado de D. João IV, a Lei de 19 de Maio de 1646 reajusta o valor dos quatro cruzados para 3500 réis.

O herdeiro natural de D. João IV, D. Afonso VI, prosseguiu a legislação anterior, batendo os cruzados de prata de 400 réis e os 2 e 4 cruzados de ouro de 1750 e 3500 réis, respectivamente. Os cruzados de prata ostentavam a Cruz de Cristo, e os 2 e 4 cruzados a tipologia anterior com a Cruz de São Jorge. As dificuldades económicas decorrentes da guerra que continuava, bem como das despesas diplomáticas da coroa para obter o reconhecimento do novo reino em relação às potências estrangeiras (em especial a Inglaterra, França e Holanda), obrigaram, por Lei de 20 de Novembro de 1662 que as moedas de quatro cruzados fossem contramarcadas e reajustadas no valor de 4000 réis.

Contudo, por Lei de 28 de Junho de 1663 é decretado um novo tipo monetário, a moeda de 4000 réis em ouro, com a Cruz de Cristo e com o valor facial (4000) à direita e ao alto das armas reais, semelhante ao tipo dos cruzados de prata. Contudo, apesar de se poder considerar um múltiplo do cruzado de prata (400 x 10 = 4000 réis), a documentação consultada não lhe atribui a designação de cruzado, mas apenas de moeda (e os submúltiplos de 2000 réis de meia moeda). O termo cruzado é reservado apenas à prata e ao ouro já muito desvalorizado das séries com a Cruz de São Jorge.

A regência e o reinado posterior, de D. Pedro, ficará para mais tarde.
MCarvalho

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Re: Dúvidas sobre os CRUZADOS.

#8 Mensagem por zirtam » domingo jul 24, 2011 1:58 pm

O saber não ocupa lugar.
É sempre um prazer aprender um pouco mais da nossa história.
Obrigado caro Mario
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Re: Dúvidas sobre os CRUZADOS.

#9 Mensagem por tm1950 » sexta set 23, 2011 6:01 pm

O Mário deve estar a regressar de férias. :D
Celso.
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Re: Dúvidas sobre os CRUZADOS.

#10 Mensagem por MCarvalho » sexta set 23, 2011 6:31 pm

:) epá, já regressei de férias há uns tempitos... a cabeça é que parece que ainda anda aluada, estava convencido que já tinha falado sobre a criação do cruzado novo até à introdução do sistema decimal...

Resumidamente:

D. Pedro, enquanto príncipe regente não cunha os cruzados em prata manualmente, apenas o meio-cruzado (com a tipologia da Cruz de Cristo). Também não adoptou o já desvalorizado cruzado de ouro tradicional (Cruz de São Jorge), altera sim, pela Ordem de 10 de Outubro de 1668, o valor da moeda de ouro, que passará a ser cunhada manualmente com o valor de 4400 réis. Depois de 1677, com a introdução regular da cunhagem mecânica, a série da moeda em ouro, por Lei de 24 de Março de 1677, passou a valer novamente os 4000 réis e a ostentar esse valor facial.

Ainda a cunhagem mecânica regular, permitiu bater os primeiros cruzados de prata mecânicos, com tipologia tradicional que se preservou, com as naturais variedades estilísticas de cada época, até ao reinado de D. Maria II.

D. Pedro, agora como rei (D. Pedro II), alterou definitivamente o valor do cruzado pela célebre Lei de 4 de Agosto de 1688 de 400 réis para 480 réis. Essa alteração não produziu mudanças no tipo monetário, pelo que continuou a ser cunhado com a marca facial de 400 até ao final da sua produção, já em 1837. Estes cruzados revalorizados em 480 réis são chamados cruzados novos.

O cruzado novo foi batido regularmente entre 1688 e 1837, acabando por ser abandonando nesse ano, como consequência da introdução do sistema decimal, em 1835.

O facto da vitória liberal em 1834 ter introduzido uma certa laicização do estado no Portugal constitucional, poderá ter contribuido para a abolição da tipologia tradicional dos cruzados com a grande Cruz de Cristo e a legenda In Hoc Signo Vinces, dando origem a emissões menos carregadas de sentido religioso.

De notar que as primeiras séries das coroas de prata (1000 réis) de 1837 e submúltiplos de D. Maria II não traziam, na legenda, a referência D. G. (Dei Gratia - pela Graça de Deus), em todo o caso, a tradição do D. G. foi rapidamente recuperada, o mesmo não aconteceu ao cruzado e suas séries.
MCarvalho

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