Marca de água.

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tm1950
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Marca de água.

#1 Mensagem por tm1950 » segunda mar 28, 2005 9:50 pm

A IMPORTÂNCIA DA MARCA DE ÁGUA

Embora este assunto da marca de água interessa essencialmente aos apreciadores do “papel de valor”, poderá, porventura, despertar algum interesse, pela curiosidade, aos amantes das moedas e à generalidade dos foristas.

O texto que se segue foi extraído de um artigo de Nestor Fatia Vidal, publicado na revista Papéis de Valor.



"O coleccionador de um “papel de valor” pode, e deve, multiplicar a observação do documento – e bem sabemos que este se integra em mais de duas dezenas de temáticas – no duplo ponto de vista intrínseco (material, cor, dimensões, etc.) e complementar (manuscrito, impresso, tipologia, selagem, origem de emissão, data, valor, assinaturas, etc.) a que acrescem o indispensável estudo histórico-bibliográfico do texto e a eventual legislação.
O preenchimento da ficha de um “papel de valor” é, assim, a forma de valorizar a colecção e uma tarefa indispensável. Depois, ela receberá os valores de aquisição, actualização do mercado, estado de conservação, raridade, etc. Quero com isto dizer que todo o documento de colecção, antes de arquivado, deve ser lido e observado com atenção, o que poderá trazer surpresas agradáveis.
Ora, uma das importantes informações que escapa, normalmente, ao coleccionador que observa um “papel de valor” é a discreta marca de água, cuja abreviatura está generalizada como Wm (do inglês: water mark), e que nos faz recordar os escondidos “sinais ocultos” das nossas moedas medievais.

1. A Wm é uma marca ou conjunto de sinais internacionais, os mais diversos – nomes, monogramas, símbolos, animais, datas, etc. –, cujos desenhos só são perceptíveis pela sua translucidez em contraste com a densidade ou espessura da pasta do papel. O desenho era construído com um fio de metal introduzido no tear da forma. Da compressão da pasta contra esse fio resulta a inscrição do seu desenho, que se mantém na pasta depois de seca.
Daí derivou, também, o nome da “filigrana”, palavra composta dos termos latinos filum (fio) e granum (grão da pasta). O designativo de marca de água deve-se ao facto de o desenho ficar revelado pela evaporação da água na secagem do papel.

2. As origens da produção deste portentoso instrumento em que, há milénios, se fazia a escrita manuscrita – do papiro, egípcio, ao papel de fibras de amoreira e de bambu chinês –, é tema que não cabe nesta síntese.
A primeira fábrica de papel, em Portugal, de que há conhecimento, foi o “moinho de papel” construído na margem do rio Lis, numa quinta nos arredores de Leiria, conforme carta régia de D. João I, datada de 29 de Abril de 1411, em que dá essa concessão ao seu escrivão da Puridade, Gonçalo Lourenço de Gomide (bisavô de Afonso de Albuquerque), tendo como matéria prima os “farrapos” de pano, como era utilizado à época e o foi ainda durante cerca de três séculos, como está confirmado por uma carta de privilégio, de 1411, em benefício de um fornecedor de trapo a essa fábrica de Leiria.
Depois desta, outras foram instaladas tais como: na Batalha (1514); em Tomar, a Fábrica de Papel do Prado, nas margens do rio Nabão, fundada no reinado de D. Maria I; e em Vizela (1802) que teve o mérito de ser a primeira a fabricar pasta de papel a usando aparas de pinho. Modernamente, as mais importantes são as do Prado, da Matrena, do Caima, da Abelheira, de Góis, de Cacia e de Vila-Velha de Ródão.
No entanto, diga-se que sempre se procedeu à importação de produtos das papeleiras europeias.

3. A marca de água mais antiga que se conhece é italiana, data de 1282 e representa uma cruz grega como símbolo dos moinhos de papel de Bolonha. A flor-de-lis aparece em França desde 1285 e na Alemanha a filigrana surge em 1486 representando o brasão de Augsburgo.
Em Portugal, não há notícia do início desta prática, mas é provável que tenha começado, nos períodos recuados do fabrico manual, derivado da construção do molde, em que os fios metálicos, que constituíam o tear das formas, marcavam o papel por linhas de água verticais e horizontais, respectivamente designadas por pontusais e vergaturas. Daí teria derivado a ideia de marcar o papel com nome, monograma ou desenho intencional.
Como anteriormente referido, as temáticas dos “papéis de valor” são múltiplas mas há duas que destaco e que se relacionam mais directamente com o assunto presente: o papel selado e as notas de Banco. De facto, esses dois tipos de documentos são espécimes mais característicos da presença de marca de água, conquanto com início temporal diferenciado e com produtores do respectivo papel distintos, misturando papeleiros nacionais e estrangeiros.
O Dr. Rui Ferreira Pires, na sua obra publicada em 1997, O Papel Selado em Portugal, Porto, Fundação Dr. António Cupertino de Miranda, dá uma importante contribuição ao estudo da marca de água no papel selado português, fazendo referência, desde o século XVII até depois de alguns papeleiros com marcas de água tais como: D & C BLAUW; HCWNED & ZOONEN; G. MAGNANI; g. leveratto; DOMgo ILARIO CALAMARI; MAGNOLFI & Cª.; GATTEGASCA; GIOV e COSCINI; GIOVANI CHECCI; POLLERI & FIGHI; VIGO GIUSEPPE, quando se refere a papeleiros estrangeiros.
Dos nacionais indica as marcas de GOES; LOUZÃ; PORTO DE MÓS; ABELHEIRA; Pº DE BRANDÃO; THOMAR; PRADO e PORTA DE CAVALEIROS. De todos estes, de destacar a Fábrica da Lousã que chegou a ter o exclusivo oficial do fabrico do papel selado.
No que se refere às notas bancárias, surgidas em Portugal (metrópole), em Agosto de 1822 (Banco de Lisboa), tive a oportunidade, na nossa revista (“Papeleiros na nota nacional”, Cédulas e Papéis de Valor, nº. 9, Abril 1989), de me referir aos fornecedores de papel e marcas de água. Aí registo que o referido Banco começou por se fornecer da Fábrica de Papel de Alenquer, a mesma que tivera como cliente o Erário Público para a impressão das respectivas “apólices”, mas devido à falta de ritmo de fornecimento de papel, o Banco foi forçado a encomendá-lo a Londres, iniciando-se aí a introdução de papeleiros estrangeiros no nosso papel moeda.
Curiosamente, a inicial marca de água do primeiro Banco metropolitano apresenta a data da fundação (1822) e o nome do Banco (Banco de Lisboa), em linha direita, passando esta em 1844 a linha curva. De referir que, entre 1847 e 1875, as primeiras notas do Banco de Portugal utilizaram aquele papel. A partir de 31 de Dezembro de 1875 apareceram notas com papel especial fabricado para o banco de Portugal pelo papeleiro alemão de Durem, Charles Schleicher & Schull. A partir daí, têm sido fornecedores estrangeiros os mais diversos 1886-1891 – Thomas De La Rue & Co. Lt., de Londres; 1891-1896 – Gieseche & Devrient, de Leipzig. Além dos papeleiros ingleses e alemães, também os franceses abasteceram o nosso mercado: “Societé Anonyme des Papeteries du Marais et de Sainte Marie, do Loire, com a marca de água MARAIS; Blanchet, Frènes & Kléber, de Rives (Isére) e Perrigot-Masure, Papeteries d´Arches, dos Vosgues.

4. Além de garantia de qualidade do produto e prova de origem do fabricante, a marca de água, quando datada, tem uma importância acrescida pois permite identificar documentos apócrifos.
E, para terminar, relato um caso judicial ocorrido no século XIX. Dois comerciantes (A e B) tinham uma sociedade comercial. Sucede que A faleceu e os respectivos herdeiros apareceram a reclamar os seus direitos. O sócio B exibe, então, um documento de acordo mútuo em que A considera B sócio único após quitação monetária efectuada. O documento estava datado de 23 de Maio de 1809 e, evidentemente, assinado por ambos. Sucede que os herdeiros não se conformaram e colocaram a questão em tribunal. Assim, o caso foi investigado e uma perícia ao documento provou, pela marca de água do papel: LOUZÃ 1813, que o documento era falso, tendo sido o sócio, sobrevivo, condenado por falsificação de documento, assinatura e tentativa de burla agravada."


Celso.
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MCarvalho
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#2 Mensagem por MCarvalho » terça mar 29, 2005 1:23 am

E foi muito bem feito para o sócio B, um autêntico trabalho de Sherlock Holmes, esse da perícia no julgamento.

Era interessante também debater aqui um pouco sobre o "papel de valor" no geral, penso que é um tema interessante que encaixa bem no fórum.

É verdade que os bilhetes de transportes públicos fazem parte do conceito de "papel de valor"? Porque não umas achegas sobre isso?
MCarvalho

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