Intervenção do membro Indy, no FNN, em 05Fev2015.
MAIS UMA HISTÓRIA ACERCA DO MOEDA DE 1 CENTAVO DE 1922, DITA DA «GAIOLA»: UMA HIPÓTESE ... UMA TESE
Remexendo em papelada antiga, lá fui encontrar o
CATÁLOGO DE MOEDAS E NOTAS DE PORTUGAL E EX-COLÓNIAS, referente ao ano de 2001, da autoria do Senhor F. Ferreira da Silva e editado pela Galeria Filatélica e Numismática do Porto, o qual, já algum tempo que o procurava. Eu tinha uma vaga ideia de já ter visto a reprodução fotográfica do reverso de uma moeda de 1 Centavo de 1922, inserta, precisamente, na contracapa de um Catálogo de Numismática de bolso. Para meu contentamento, finalmente, consegui localizá-lo.
A imagem da moeda inserta no referido Catálogo vale o que vale: todos nós sabemos que a mesma pode ter sido copiada, forjada, adulterada, manipulada, alterada, mexida propositadamente, sabe-se lá, até ... por brincadeira, etc.. Não conheço o autor do Catálogo, nem os outros colaboradores do mesmo. Certamente que seria esclarecedor obter, de viva voz, as respectivas versões acerca da face da moeda fotografada. De qualquer maneira, admitamos ,
POR HIPÓTESE, que a imagem reproduzida retrata fielmente uma face de uma moeda de 1 Centavo de 1922. Nela pode constatar-se que:
a) A moeda não está limpa (ou foi «suja» propositadamente)
b) A moeda tem uma considerável mazela na legenda: POR (...) ESA, no reverso
c) Essa mazela pode ser compaginável com o facto da moeda ter sido «soldada» na porta de uma «gaiola» de pássaro servindo de batente.
Há mais de 45 anos que ouvi falar, pela primeira vez, da existência da moeda de 1 Centavo de 1922, dita da «GAIOLA».
Na década de 60 do século passado, os principais pontos de compra e venda de moedas antigas, em Lisboa, seriam: a Feira da Ladra; as casas de velharias/antiguidades; alguns ourives; já teria ocorrido um ou outro encontro na Arcadas do Terreiro de Paço, aos domingos de manhã (com «corridas» efectuadas pela PSP / PIDE) e as casas de câmbio. Na Baixa de Lisboa existiam vários cambistas. Entre os mais conhecidos, lembro-me do J. Burnay - cambista, situado na Rua do Ouro. Nesse tempo, eu era um jovem adolescente iniciado no coleccionismo de moedas antigas e quando tinha alguma disponibilidade financeira, lá ia ao J. Burnay comprar alguma moedita: cobres e pratas da Primeira República. O Senhor Pedro Capitão, respeitável funcionário da casa, tinha sob sua responsabilidade o negócio das moedas antigas. Eu procurava comprar os cobres e as pratas mais baratinhos, e ele tirava, ao calha, a moeda pretendida de um dos enormes tabuleiros de madeira, com divisórias, contendo moedas a granel (ainda não havia alvéolos). Curiosamente, a maior parte das moedas mais vulgares estava num estado de conservação muito elevado, de Belas a Soberbas. Ele metia a lupa e atirava com preço: 2$50; 4$00, etc.
Certo dia, estando eu na J. Burnay, pude constatar o estado de euforia do Senhor Pedro Capitão. Ele apregoava, aos quatro ventos, o bom negócio efectuado na véspera. Teria vendido um lote de moedas antigas por 200 contos (muito dinheiro para a época), onde teria incluído, entre outras, a moeda de 1 Centavo de 1922, que teria servido como batente (e não como anilha) na porta de uma «gaiola» de pássaro. A moeda teria um defeito na zona onde tinha sido «soldada». A compra teria sido feita por um cavalheiro, cliente habitual, cujo negócio era a compra de objectos pequenos, mas de valor elevado, que levava para as Colónias, em particular Angola e Moçambique, onde as vendia, por bom preço, na moeda local. Os compradores pagavam bem e quando vinham à Metrópole, de férias ou em negócios, traziam os objectos comprados que tornavam a vendê-los cá, em escudos do Continente. Para se compreender bem este negócio, convém acrescentar que o câmbio entre a moeda corrente nas Colónias e o escudo da Metrópole era muitíssimo limitado: havia plafonds apertados; o processo era moroso e a taxa de câmbio era muito desfavorável às moedas coloniais. Com o evoluir da guerrilhas, nas três frentes de combate, havia muitos colonos que preferiam perder na taxa de câmbio, mas asseguravam no Continente, um pé de meia, em escudos.
Nunca mais pensei no assunto até que se começou a popularizar o coleccionismo numismático, particularmente, a partir de 1972/1973, em que a substituição das alpacas pelos bronzes, a meu ver, teria tido um papel determinante.
Não há muito tempo, relatei este episódio a um especialista em Numismática que muito considero, o qual me informou que, tanto quanto sabia, esse centavo de 1922, dito da «gaiola» teria sido restaurado e posteriormente vendido em Lisboa, já neste século.
A minha
TESE, e ao mesmo tempo interrogação é a seguinte: será que a imagem do centavo apresentado no Catálogo refere-se a 1 dos 6 exemplares conhecidos, estando 1 deles com um bom restauro?
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Acácio