Com um valor de 500 Reais, o Engenhoso de D. Sebastião integra-se no seleto grupo de moedas portuguesas de excecional raridade e valor, sendo uma peça “desejada” em qualquer grande coleção pública ou privada, ainda que de difícil adquisição, dado o escasso número de exemplares que chegou até aos nossos dias. Mas, acima de tudo, esta moeda é um testemunho da primeira e singular inovação tecnológica na produção monetária em Portugal, operada em 1562, com a utilização de um engenho inventado pelo artista vimaranense João Gonçalves, que permitia fabricar moeda de ouro fundida, em série, com uma qualidade uniforme, peso regular e uma orla para não se poder cercear, “sem que se visse, e enxergasse” (Manoel Barbosa, 1732), prática fraudulenta que, então, muito preocupava os responsáveis da Casa da Moeda, como transparece na lei monetária de 2 de janeiro de 1560.
Nunca é demais realçar a importância histórica deste “salto” tecnológico, simbolizado no Engenhoso, que começa a ser desenvolvido no reinado de D. João III, quando João Gonçalves recebeu do rei sessenta mil reais para construir um engenho para fabricar moeda, facto atestado em alvará de 30 de outubro de 1553. Preocupação semelhante em inovar a tecnologia de produção de moeda, teria Henrique II de França que, em documento de 3 de março de 1553, ou seja, cerca de oito meses anterior ao alvará de D. João III, concedeu a função de “mestre e condutor dos engenhos para a produção de moeda fundida” a Aubray Olivier que seria o inventor deste processo de fabrico de moeda. Mesmo ignorando-se se esta “invenção” foi autónoma, ou não, em França e em Portugal, certo é que a utilização destes engenhos foi rapidamente abandonada nos dois países, uma vez que as despesas na produção de moeda eram bem mais significativas do que a amoedação a martelo. A produção do Engenhoso terá ocorrido entre 1562 e 1566, desconhecendo-se exemplares de 1564, mas a emissão sem data, a que pertence o exemplar aqui apresentado, poderá atribuir-se a 1564 ou a uma data posterior a 1566.
A tipologia e a legendagem do Engenhoso seguem a dos Cruzados introduzidos pela lei monetária de 1560, com o Escudo do Reino, acompanhado pelo letreiro SEBASTIANVS•I•R•PORTVG, no anverso, e Cruz de Cristo, rodeada por ✠IN-HOC-SIGNO-VICES, no reverso. Não atendendo às artes distintas, a principal diferença entre os cruzados a martelo e os produzidos pelo engenho de João Gonçalves, reside na orla bem delineada (com 3 tipos distintos, Gomes, 2013, p. 224), para dificultar o cerceio e, na legenda do reverso, a substituição intencional de VINCES por VICES, onde, por norma, o I é acentuado com um til, permitindo uma leitura idêntica à do vocábulo completo. Esta situação não ocorre nas emissões sem data, como é o caso da moeda aqui em apreço.
Em suma, o Engenhoso de D. Sebastião é o fruto, hoje de excecional raridade, de uma inovação tecnológica que procurou suplantar, sem sucesso, a técnica de amoedação a martelo, então, com mais de dois mil anos de idade que, em Portugal, após a efémera experiência com o engenho de Antonio Routier, no ano de 1649, só foi definitivamente abandonada a partir de 1677.
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O Engenhoso de D.Sebastião
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- Clayton Mesquita
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O Engenhoso de D.Sebastião
#1 Mensagem por Clayton Mesquita » quarta dez 23, 2020 11:13 pm
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