Meio tostão de D. João v - Estudo de exemplar falsificado pelo método da fundição

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numisiuris
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Meio tostão de D. João v - Estudo de exemplar falsificado pelo método da fundição

#1 Mensagem por numisiuris » segunda mai 08, 2017 11:38 pm

MOEDA EM QUESTÃO:
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O meio tostão de D. João V com estrela de cinco pontas é o segundo meio tostão mais bem cotado no catálogos de referência. Para se ter uma ideia, refira-se que marca no Catálogo Alberto Gomes 2013 os valores de 100, 200 e 400 euros, nos estados de conservação bc, mbc e bela, respectivamente. É uma moeda considerada bastante escassa pelos coleccionadores e que não aparece muito no mercado.
Este exemplar foi-me vendido, há cerca de 15 dias, por um detectorista no facebook, pelo valor de 30 euros. Quando perguntei ao vendedor se ele tinha encontrado a moeda ou se a tinha comprado, prontamente respondeu que a encontrou. Após o que o confrontei com certos factos acerca da mesma, tendo este continuado a afirmar que a moeda era autêntica e por si encontrada na terra, com um detector de metais. Tendo inclusive acrescentado que existiam várias referências iguais desta moeda com características diferentes ao nível do metal.
Todo este espírito de certos detectoristas, focados no proveito a curto prazo, terá um efeito contagiante na opinião dos coleccionadores acerca de práticas comerciais menos honestas. Acaba por ser este o “modus operandi” de quem introduz falsificações no mercado: “Vieram da terra”... Ainda assim, realce-se que nem todos os detectoristas assim agem, acreditando eu que os maus exemplos são excepções. Como em tudo na vida, há trigo e há joio. Resta saber distingui-los.
Perante esta moeda, pouco me resta a não ser analisá-la e estudá-la. Devolvi a moeda ao vendedor, recebi o meu dinheiro de volta e nada mais lhe disse, após aquilo em que me pretendeu fazer crer. É neste sentido que escrevo o presente apontamento. Não só para referenciar a falsificação, como para expor as suas características.

FOTOS RASANTES E DE PORMENOR:
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COMPARAÇÃO COM UM OUTRO EXEMPLAR DE MEIO TOSTÃO:

À partida, um meio tostão de D. João V, ainda que escasso, mas num estado de conservação que não é superior, não será uma moeda de que os coleccionadores desconfiem. E talvez seja esse o motivo porque inicialmente me passou ao lado a análise mais profunda de algumas características da moeda. Simultaneamente, as fotos do vendedor não tinham grande definição, pelo que tudo era propício a que o alarme da falsificação não soasse. Quando recebi a moeda, no entanto, ao colocá-la no tabuleiro junto a um outro meio tostão de D. João V, reparo que este exemplar era mais pequeno e mais leve. Após o que reparo em certas características do metal que imediatamente me desagradaram.
No que toca à metrologia, refira-se que a moeda em análise pesa 0,88g e tem 15,5mm de diâmetro. Para que seja fácil a análise, apresento a foto deste meio tostão juntamente com aquele com que o comparei, também da minha colecção, que pesa 1,22g e tem 17mm de diâmetro:
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Simultaneamente apresento fotos de comparação entre o anverso e o reverso, de onde ressaltam desde já diferenças ao nível da volumetria dos elementos, bem como do peso e dimensões da moeda em si, tudo isto aliado ao diferente aspecto do metal e padrão de desgaste:
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Ainda assim, visto que se tratam de duas variantes diferentes, poderia esta diferença ser natural. Pelo que necessário se tornaria encontrar um exemplar da mesma variante. Neste sentido, foi do maior préstimo o amigo e coleccionador Mário Matos, que prontamente cedeu fotos e dados metrológicos do seu exemplar para comparação e aferição da autenticidade desta moeda que me tinha vindo parar às mãos.

EXEMPLAR DA COLECÇÃO MÁRIO MATOS E COMPARAÇÃO AO EXEMPLAR EM APREÇO:
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O exemplar da colecção Mário Matos pesa 1,48g e tem um diâmetro de 16,37mm. O exemplar em apreço terá portanto um diâmetro 5% inferior ao do exemplar da colecção Mário Matos e um peso que representa 59,5% do peso do mesmo exemplar. Restará compará-los:
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Da comparação entre os dois exemplares, ressaltam apontamentos significativos.

No anverso:

*A posição relatva dos dois últimos “X” da marquilha;
*A palavra “REX” e a sua junstaposição parcial com os arcos da coroa;
*A posição relativa dos elementos em geral.

No reverso:

*A concavidade do extremo do braço superior da cruz de São Jorge;
*A posição relativa dos quadrifólios que cantonam a cruz de São Jorge;
*A posição relativa da legenda e demais elementos.

É-me portanto dado a ver que as duas moedas compartilham o cunho (de anverso e reverso). Simultaneamente, noto, pelo desgaste apresentado na moeda da colecção Mário Matos, que são dois exemplares perfeitamente distintos e que nenhum foi feito com base no outro. Mas noto também certas diferenças na textura do metal, padrão de desgaste e contorno das arestas, as quais já eram perceptíveis na comparação com o exemplar que apresentei inicialmente.Neste sentido, passo a individualizar certas características do exemplar em apreço.

CARACTERÍSTICAS QUE CHAMAM A ATENÇÃO NO EXEMPLAR EM APREÇO

1-Arestas dos relevos apresentam-se na sua maioria escavadas no campo, ao redor dos mesmos
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Conforme é indicado pelas setas, todos ou quase todos os relevos se encontram escavados em toda a volta, não se notando linhas de fluição, típicas de um processo de cunhagem mecânica, as quais normalente emergem da base dos relevos, estendendo-se ao longo do campo.

2-Indefinição das arestas que emergem do campo na formação dos relevos
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Conforme se pode notar na imagem apresentada, a qual realça novamente os sulcos escavados em volta dos relevos, estes não têm arestas definidas, típicas de um processo de cunhagem mecânica. Pelo contrário, as mesmas encontram-se boleadas, inexistindo os habituais vincos entre o campo e os relevos. De notar também que o campo não é liso, apresentando metal com aspecto empastado.

3-Patine
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A patine deste exemplar aparenta ser constituída por restos de uma capa que permaneceram na moeda após um processo de limpeza. Esta característica indiciaria um achado. No entanto, após raspagem com um palito aguçado, verificámos que todas as pequenas manchas negras se transformavam rapidamente num aglomerado polvorento, o que não acontece com capas originais. Apresentamos uma outra imagem, com pormenor de uma zona em que a suposta patine se adensou, junto à letra G.
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4-Marcas de lima ou de lixa
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O exemplar apresenta marcas de lima ou de lixa que atravessam os relevos e se estendem pelo campo, numa trajectória multidireccional. Não correspondem estas marcas a linhas de fluição típicas dos processos de cunhagem mecânica, muito menos às habituais estrias provocadas pela limagem dos cunhos.

5-Ausência de marcas de circulação
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O exemplar não apresenta qualquer marca de circulação. As marcas assinaladas com setas na imagem seriam o que mais se assemelharia às mesmas. No entanto, estas apresentam as arestas aguçadas, o que indicia que sejam marcas recentes. Tal facto é confirmado pela direcção unívoca de todas estas marcas, o que não se compadece com um padrão aleatório típico das verdadeiras marcas de circulação.

NOVO ACHADO

Ontem, no facebook, apareceu um novo meio tostão de estrela de cinco pontas, "para apreciação", postado por uma pessoa diferente. Perguntei o peso, ao que hoje obtive a resposta, 1,3g.
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COMPARAÇÃO ENTRE ESTE NOVO ACHADO E O EXEMPLAR EM APREÇO
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Da comparação entre os dois exemplares, resulta o seguinte:

*As moedas compartilham o cunho de anverso e reverso;
*A dimensão relativa do bordo é, na sua maioria, proporcional nos dois exemplares;
*As zonas mais desgastadas no rebordo deste exemplar são as que ficaram menos vivas no rebordo do exemplar em apreço;
*Com incidência na cruz do reverso, repara-se que a dimensão relativa dos elementos, apesar de proporcional, não é coincidente.

CONCLUSÃO

O exemplar em apreço apresenta um peso bastante inferior ao peso verificado em exemplares semelhantes. Apresenta também um diâmetro inferior ao de uma outra moeda do mesmo cunho. Só por si estes factos seriam suficientemente indiciadores de uma fundição. Com efeito, a fundição por molde está associada a uma diminuição do peso, a par de uma diminuição da volumetria dos elementos, verificada neste caso pela comparação com o exemplar da colecção Mário Matos.
Para mais, a moeda em causa apresenta total ausência de marcas de circulação e mostra-nos também marcas de uso de lima ou lixa, típicas do aperfeiçoamento de moedas fundidas. Simultaneamente, os relevos não são vincados, bem como denota ausência de linhas de fluição e um aspecto poroso.
A pedra de toque é a patine, que eventualmente será feita de carvão, visto que salta da moeda com a maior das facilidades, não podendo portanto corresponder a restos de crosta, característicos das moedas enterradas durante muitos anos e posteriormente sujeitas a um processo de limpeza.
Toda a argumentação do vendedor acaba por, de acordo com as regras de experiência comum, confirmar o facto de este se tratar de um exemplar falsificado.
O novo exemplar que apareceu, parece ser a moeda original da qual foi feito o molde da moeda em apreço. O serrilhado às 13h coincide com as zonas em que este novo exemplar apresenta melhor definição da serrilha. O mesmo se passando com as zonas em que a mesma não ficou bem marcada.
Persiste apenas uma dúvida. Porque se apresentam os relevos todos escavados em volta? Sabemos que um dos traços típicos da fundição se prende com o aparecimento de empastamentos do metal junto à base dos relevos. Não se notam marcas de ferramentas que possam ter aberto esses sulcos já depois de a moeda ter sido produzida. Caso isso tivesse acontecido, notar-se-iam tão bem como as marcas de lima ou lixa. Pelo que tudo me leva a crer que tenham esses sulcos sido escavados no molde, com vista ao seu aperfeiçoamento, o que explicará certas diferenças (estilísticas e não só) entre o exemplar em apreço e o novo exemplar.
Neste sentido, finalizo a identificação de uma falsificação por fundição, introduzida no mercado sob a égide do detectorismo e a aparência de achado, partilhando este apontamento com os demais coleccionadores, para que sirva de instrumento de análise às falsificações pelo método da fundição e para que sirva de alerta, visto que a moeda em apreço continuará no mercado.




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silvio2
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Re: Meio tostão de D. João v - Estudo de exemplar falsificado pelo método da fundição

#3 Mensagem por silvio2 » terça mai 09, 2017 7:09 am

Caro Iuri

Quero dar-lhe os parabéns, por mais este notável e surpreendente estudo, acerca desta moeda … falsificada
(como o Amigo, tão bem demonstrou!). :clap3:
Quero, ainda, realçar a facilidade com que se exprime e a forma como escreve, clara e concisa, o que ajuda,
sobremaneira, à compreensão dos seus textos!

Muito obrigado, por contribuir de forma tão generosa e apaixonada, para o enriquecimento da cultura Numismática, de todo nós. :thumbupleft:
Cumprimentos,
Sílvio Silva

jdickson
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Re: Meio tostão de D. João v - Estudo de exemplar falsificado pelo método da fundição

#4 Mensagem por jdickson » terça mai 09, 2017 8:11 am

Excelente "dissecção" do exemplar! Não ficou nada por dizer e as fotos estão um mimo!
Parabéns (e obrigado)! :clap3: :clap3: :clap3: :clap3: :clap3:

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palves
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Re: Meio tostão de D. João v - Estudo de exemplar falsificado pelo método da fundição

#5 Mensagem por palves » terça mai 09, 2017 9:18 am

Esta moeda andou no mercado... Mais um vendedor para a lista negra.

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fernanrei
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Re: Meio tostão de D. João v - Estudo de exemplar falsificado pelo método da fundição

#6 Mensagem por fernanrei » terça mai 09, 2017 12:53 pm

É um trabalho notável que roça sem dúvida alguma a perfeição. Pessoalmente agradeço o seu esforço e dedicação aplicados de forma proporcional aos factos, fotos muito esclarecedoras e comentários muito bem enquadrados. Estou numa curva ascendente de satisfação relativamente aos constituintes do grupo e acredito que assim vou continuar por muito tempo. Um agradecimento especial a si e faço votos para que continue o seu notável trabalho.
:D FMMRei :D

euoutravez
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Re: Meio tostão de D. João v - Estudo de exemplar falsificado pelo método da fundição

#7 Mensagem por euoutravez » terça mai 09, 2017 1:31 pm

Óptimo trabalho :)
Um dia destes ainda tenho de comprar uma balanca e validar as moedinhas todas que lá andam por casa!!!

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Mmatos
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Re: Meio tostão de D. João v - Estudo de exemplar falsificado pelo método da fundição

#8 Mensagem por Mmatos » terça mai 09, 2017 6:14 pm

Parabéns, Iúri, pela detalhada análise e explicação do exemplar em causa. É por existirem pessoas como tu, com grande dedicação ao estudo destas rodelinhas a que chamamos moedas só pelo prazer do conhecimento e da partilha, que há muita "gentinha" raivosa por se ver desmascarada e a ver a vidinha a andar para trás. Bem hajas !

jobeti
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Re: Meio tostão de D. João v - Estudo de exemplar falsificado pelo método da fundição

#9 Mensagem por jobeti » terça mai 09, 2017 9:29 pm

Excelente trabalho.Parabens.Os coleccionadores agradecem.
ajudar para ser ajudado

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numisiuris
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Re: Meio tostão de D. João v - Estudo de exemplar falsificado pelo método da fundição

#10 Mensagem por numisiuris » quarta mai 10, 2017 6:36 am

Obrigado a todos pelos comentários. Esperemos que seja útil! :)

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