Diferentes estados de conservação

Dúvidas relacionadas com estados de conservação de moedas

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dogma73
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Diferentes estados de conservação

Mensagem por dogma73 » domingo set 26, 2010 5:28 am

Bom dia.

Esta é a minha segunda intervenção neste fórum, a primeira foi aquando da minha apresentação à uns meses. Nesta abordagem gostaria de partilhar convosco a insólita experiência, por mim vivida, sobre a origem das peças que poderão visualizar no link

http://img534.imageshack.us/i/galeaoespanhol.jpg/


Conheci um senhor num café de forma inesperada dado que me abordou repentinamente porque me tinha ouvido a falar sobre moedas da monarquia. Disse me que era Arqueólogo Marinho e que tinha participado em inúmeras expedições ao fundo do mar. Uma das expedições que o mais tinha marcado fora a do naufrágio ao largo de Peniche do navio espanhol San Pedro de Alcântara.
Convidou-me para ir a casa dele, mostrou e deixou tirar esta foto destes três exemplares de Carolus III de 1782. Moeda em Prata, cunhada no Peru. Como poderão constatar o primeiro exemplar (lado esquerdo) foi limpo através de um processo de electrólise (se não estou em erro). Representam 3 estados de conservação em progressão

Independentemente de tudo e para que possam ter noção da importância histórica deste acontecimento passo um excerto relatado por um historiador….

«O navio de guerra espanhol de 64 canhões, partiu do Peru na América do Sul em 1784 com destino a Cadiz no Sul de Espanha. Carregava Cobre, Prata e Ouro provenientes das minas Peruanas, bem como um extenso e valioso espólio constituído por peças de cerâmica pré-hispânica da cultura Chimu, pertencente à colecção cientifica dos botanistas Ruiz e Pavon, que estes recolheram no início de 1780 de diversas ruínas e cavernas na região de Tarma. Transportava ainda uma sinistra carga humana, Incas do movimento independentista Tupac Amaru, para além da tripulação e passageiros, num total de mais de 400 pessoas.
Na época as regras de carregamento de navios não se regiam exactamente por critérios de segurança ou de razoabilidade, mas sim na maioria das vezes, por critérios económicos, políticos ou militares, como veremos à frente.
De facto, em 1784 o San Pedro de Alcantara carregava quase mil toneladas de carga, ou seja, cerca do dobro da carga normalmente indicada como limite para um navio daquelas características. Desta carga, cerca de 600 toneladas seriam de Cobre, 153 toneladas de Prata sob a forma de moeda e 4 toneladas de Ouro.
Com esta carga o navio corria o risco de perder o fundo em caso de uma tempestade e ficaria muito difícil de manobrar.
Às 22h30 do dia 2 de Fevereiro de 1786 o San Pedro de Alcantara encontraria o seu destino ao embater de forma muito violenta contra os rochedos da Papoa em Peniche. Desta tragédia resultariam 128 mortos e 270 sobreviventes.
A notícia chegaria a Espanha nesse mesmo dia e com grande alarme se preparou a maior empresa de recuperação de que havia história. De facto a grande maioria da carga seria recuperada em cerca de três anos de trabalho com recurso a mais de 40 mergulhadores de diversos Países da Europa que, em apneia (mergulho livre), trouxeram à superfície a quase totalidade das peças de fogo (equipamentos extremamente valiosos e dispendiosos na época) bem como a quase totalidade das mais de 750 toneladas de metais preciosos e moedas que continha a carga do San Pedro de Alcantara.

A importância singular deste naufrágio
De facto o naufrágio do San Pedro de Alcantara revestiu-se na época de importância e revelo singulares. O que motivaria uma tão extensa, pronta e dispendiosa acção de recuperação da sua carga seria ela mesma. Calcula-se que para a economia Espanhola da época a sua carga de cobre, prata e ouro, representaria mais de 10% do valor económico em circulação, pelo que a sua perda causaria, com toda a certeza, uma catástrofe económica e o seu colapso, com todas as implicações económicas, sociais e políticas e com a perda do relevo mundial do império Espanhol.

A carga humana cativa do San Pedro de Alcantara
O San Pedro de Alcantara para além da valiosa carga em metais preciosos, soldados tripulantes e passageiros, trazia uma vintena de presos políticos índios entre homens, mulheres e crianças, ligados à rebelião de Tupac Amaru, dezassete dos quais morreria no naufrágio. Nestes presos estava Fernando Tupac Amaru, o filho mais novo do rebelde, que sobreviveu ao naufrágio e que após algum tempo de liberdade viria a entregar-se às autoridades sendo enviado para Espanha onde morreria alguns anos mais tarde.
Esta comitiva de presos políticos reveste-se de especial relevo pela ligação à maior rebelião indígena que a história colonial hispano-americano viria a registar. Em 1780, José Gabriel Tupac Amaru, que era cacique da aldeia de Tungasuca, no vale do rio Vilcanota (Sagrado para os Incas), iniciaria a mais de 3300 metros de altitude nos Andes do Perú meridional, uma rebelião que o conduziria à morte por enforcamento um ano mais tarde.
José Gabriel Tupac Amaru, descendente da dinastia Inca por linhagem da sua mãe, foi executado pelos mesmos Espanhóis que tinham dizimado, duzentos anos antes, o antigo e poderoso império Sul-Americano. O chefe rebelde seria esquartejado em público na presença do seu filho mais novo, Fernando, que escaparia com vida à tragédia da Papoa em Peniche, e que uma vez mais por persistência do destino, morreria também ele às mãos de Espanhóis.

Espero que a minha intervenção tenha sido do vosso agrado e um contributo para o enriquecimento do conhecimento de todos aqueles que participam no forum.


Melhores Cumprimentos
Nuno Brito


E Pluribus Unum

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jcarlos
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Re: Diferentes estados de conservação

Mensagem por jcarlos » segunda set 27, 2010 7:32 pm

Deveras interessante que tenha tido a oportunidade de ouvir relatar a história de um processo tão interessante. Obrigado por partilhar. :thumbupleft:

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josape
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Mensagem por josape » segunda set 27, 2010 8:38 pm

Interessante, obrigado por partilhar. :thumbupleft:
José Pereira

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Tostão
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Re: Diferentes estados de conservação

Mensagem por Tostão » segunda set 27, 2010 9:49 pm

Muito interessante este pedaço de história :claps:
Luís Gregório

Alguns têm na vida um grande sonho e faltam a esse sonho. Outros não têm na vida nenhum sonho, e faltam a esse também.

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antoniojulio
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Mensagem por antoniojulio » segunda set 27, 2010 9:52 pm

Gostei da história. :green:
COM OS MEUS CUMPRIMENTOS.
ANTÓNIO JÚLIO

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smertola
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Mensagem por smertola » quarta set 29, 2010 3:01 pm

Muito interessante! :)
Cumprimentos,

Sérgio Mértola

http://megaleiloes.pt/LEILOES-DE-smertola

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