80 Reis (Maluco)

Moedas cunhadas desde D.Pedro P.Regente até D.Manuel II

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rui_medeiros
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80 Reis (Maluco)

Mensagem por rui_medeiros » sexta nov 02, 2007 4:56 pm

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A necessidade de afirmar D. Maria II, como a legítima rainha de Portugal, e a falta de moeda na época, levaram a Junta Governativa, instalada em Angra, , a mandar recolher o que houvesse de prata velha, sinos pequenos, sinetas e outras peças de cobre e bronze, para obter moeda.

Esta foi fundida, por Ordem de 7 de Maio de 1829, em dependência do Castelo de São João Baptista, seguindo de perto o modelo da Peça em ouro, cunhada no Rio de Janeiro, na regência do príncipe D. João.

Corria pelo valor de 80 réis, passando pouco tempo depois a circular por 100 réis, sendo hoje mais conhecida pela designação de «Maluco».



ml
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Mensagem por ml » sexta nov 02, 2007 6:40 pm

Maluco fico eu quando começo a ver estas moedas.

Como já contei uma vez, repito :

« O rei Imperador Pedro enviara D. Maria II para a Europa. A presença da jovem rainha em Inglaterra deu novo alento aos milhares de exilados, ao passo que o dinheiro vindo do Brasil ( nos termos do tratado de paz de 1825 ) ajudava a preparar a expedição que pôde desembarcar nas praia da Terceira, em começos de 1829. A ilha revoltara-se contra D. Miguel e sustentara com galhardia a causa liberal durante mais de um ano. Grande numero de exilados e de elementos locais organizaram um governo provisório em Angra e uma regência chefiada pelo marquês de Palmela. A jovem soberana regressara entrementes ao Brasil, esperando melhores dias .»
« Historia de Portugal – 2.º Volume – A. H. Oliveira Marques »

Esta moeda de bronze de valor facial de 80 reis, foi por imperiosas circunstâncias, que o momento exigia, fundida inicialmente no Castelo de S. Jorge da Ilha Terceira, por ordem da Junta Provisória que em nome de D. Maria II ali governava.

«… passou-se a ordem para esta operação já em 16 de Dezembro de 1828 e tratava-se por ora de sinos quebrados. Feita a experiência, por estes, pouco depois mandaram-se apear os de bom uso, de forma que nem os sinos das igrejas paroquiais somente, e os das ermidas filiais, se não ainda os de algumas Câmaras, foram levados para o Castelo, e entregues na fundição que, ali primeiro, e depois na Alfândega, se preparavam, e com tal rigor se procedeu a este respeito, que muitas igrejas ficaram com pequenas sinetas de que nenhum caso se fazia…».
« Anais da Ilha Terceira – Francisco Ferreira Drumond »

As instalações da Casa da Moeda, todos os historiadores afirmam que não passou de uma simples oficina de fundição, onde não existia laminador, balancé, ou coisa semelhante e onde «… apenas … se encontrava um tosco caixão de madeira, cheio de areia fina húmida e batida, na qual moldavam o anverso e reverso desta moeda de bronze…»
« Arquivo dos Açores – Bernardino José de Sena Freitas ».

Sobre o desenho, não sabemos quem é o seu autor, nem de que matéria foram feitos os moldes, todavia é curioso notar a manifestação da opinião de que seria difícil a sua contrafacção por motivo da sua imperfeição. « Foi esta moeda de um cunho muito grosseiro, por falta de máquinas, mas aperfeiçoando-se, se tanto podemos afirmar, com o socorro de um lima que lhe tirava as sobras, e que por esta mesma causa se tornava dificultosa a sua falsificação ».
« Anais da Ilha Terceira – Francisco Ferreira Drumond ».

Infelizmente para o erário da causa constitucional, que teve necessidade urgentíssima de apear das torres sineiras os seus seculares moradores, assim não sucedeu, e foi precisamente o aspecto grosseiro que estimulou e facilitou a sua imitação.
« …a muitos traficantes e especuladores fácil lhes foi terem as suas fábricas dessa moeda, e para esse fim furtavam-se campainhas das casas particulares e as maçanetas de metal das janelas, as sinetas das capelas públicas e das particulares; compravam-se por baixos preços quantos tachos velhos, candeeiros e castiçaleiros lhes apareciam, roubavam os castiçais das Igrejas, e esgotados estes materiais, despachavam na Alfândega barricas com pregos e ferragens… ».
« Arquivo dos Açores – Bernardino José de Sena Freitas.»

Postas a circular, o que pela sua semelhança não devia dar grande preocupação aos falsários, era difícil ou mesmo impossível poder-se reconhecer as verdadeiras das falsas, não só as fundidas clandestinamente nos Açores, como outras vindas de contrabando do estrangeiro «… além destas ( as verdadeiras ), andavam igualmente em circulação, sem se poderem distinguir, grande número de outras falsas, fabricadas nas mesmas Ilhas e nos países estrangeiros».
« Descrição Geral e História das Moedas de Portugal – Teixeira de Aragão ».

Saudações numismáticas.

ml

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W7_Moedas
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Mensagem por W7_Moedas » sexta nov 02, 2007 7:28 pm

olá,

Uma bela moeda e uma bela compilação da história da mesma.
Parabéns a ambos.

[]s

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insvlano
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Mensagem por insvlano » sexta nov 02, 2007 10:10 pm

Para os interessados na história desta moeda, aqui vão alguns extractos do que escreveu Henrique de Campos Ferreira Lima sobre OS “MALUCOS”, comunicação feita na Secção de Numismática em 16 de Abril de 1926:

“…Nesta fundição se aproveitou o bronze dos sinos pertencentes a diversas paroquias, conventos e ermidas das ilhas Terceira, Fayal, Flores e Corvo, num total de 184 sinos, que pesaram 2.609 arrobas e 5 arrateis, segundo informa o Angrense, nos seus nºd. 334, 335 e 229 de 1842.

Deu-se início à fundição em 3 de Abril de 1829. A moeda pesava 5 a 7 oitavas.

A regência, que sucedeu àquela Junta Provisória, sancionou, em 5 de Abril de 1830, a emissão e curso desta espécie monetária.

Em 16 de Junho seguinte foi mandado cessar o seu fabrico, na referida casa debnorzeda, de que, então era director o conselheiro Teotónio d´Ornelas Bruges e Ávila, por se considerar suficiente a importância já fabricada.

Um ano depois. Por decreto de 27 do mesmo mês, foi encarregado o inspector do arsenal, capitão d´artilharia António José da Silva Leão, depois Barão de Almofala, de continuar, com urgência, os trabalhos de fundição da moeda, visto já não chegar, a que existia, para as necessidades do comercio.

A quantidade de moeda cunhada elevou-se, por esta forma, a 111 contos, havendo, além disso, muita moeda falsa, feita nas ilhas e no estrangeiro, que não se diferençava das verdadeiras, o que tudo consta do preambulo do decreto adiante referido.

Por estes motivos e porque também o seu valor intrínseco era insignificante em relação ao nominal e pelo facto de apenas circularem nas ilhas foi, por decreto de 9 de Junho de 1832, mandado cessar o curso das ditas moedas de bronze…”

E, se o período de circulação foi efémero, não menos inglório foi o fim desta interessante moeda.

“…Segundo os livros de registo da casa da moeda de Lisboa, de 15 de Maio de 1835 e 27 de Fevereiro de 1836, foram ali recebidos 330 caixotes com malucos, com o valor nominal de 46.760$190 reis, se verificou dar 44.520$080 ou 63.454 moedas. Pesavam 63.684 arrateis e, fundidos em barras reduziram-se a 63.454 arrateis que, em 3 de Julho, foram arrematados, em leilão, por Luiz Rodrigues Bellas à razão de 75 réis e ¼ cada arrátel, num total de 4.774$913.

Depois da ultima data indicada vieram ainda mais remessas para a casa da moeda de Lisboa.

Assim a 20 de Agosto de 1836 deram entrada 20 caixotes no valor de 2.628$240; a 18 de Abril de 1837 mais 20 caixotes com o peso de 345 quintais e 14 arrateis.

Neste ultimo ano pediu autorização o provedor para reduzir a barras todas as moedas recolhidas e vende-las, o que lhe foi autorizado em 23 de Julho.

Já, anteriormente, uma portaria de 29 de Fevereiro de 1837, autorizara a fundição da moeda de cobre, aliás de bronze, contida em 63 caixotes conservados no mesmo estabelecimento.

Ainda em 4 de Junho de 1844 recebeu uma ultima remessa de 10 caixotes, com o peso bruto de 65 arrobas e 30 arrateis, contendo malucos, retirados da circulação na ilha do Faial…”

Cumprimentos,
M. Rodrigues

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António Ávila Braia
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Mensagem por António Ávila Braia » sexta nov 02, 2007 10:46 pm

Assoberbado o governo da Regência pelas excessivas despesas em Inglaterra com os emigrados e com as outras de dia para dia mais crescentes no seu reduto da Terceira , [ ] tornou-se urgente recorrer a empréstimos que sendo insuficientes, se mudaram noutra operação, a do papel moeda, estampado só para circulação na ilha Terceira e com promessa de ser amortizável - que por sinal não foi.
Estas medidas financeiras não bastaram. Viraram-se então aos sinos dos conventos e fundiram-nos, reduzindo-os a pequenas e toscas moedas de bronze com o valor facial de 80 reis denominadas pelo povo - malucos.
A sua fácil imitação animou os fabricantes de moeda falsa - e foi uma invasão de malucos de louvar a Deus que se extravasou pelas demais ilhas. Uns e outros (verdadeiros e falsos) tiveram curso legal por Dec. de 5 de Abril de 1830; mas o ministro Mousinho da Silveira por diploma de 9 de Julho de 1832, ordenou que deixassem de ser moeda corrente nos Açores e que fossem arrecadados pelo seu valor usual. Mais uma das fantasias de Mousinho.
Os malucos continuaram a circular desempedidamente. É que D. Pedro ainda na terra açoreana, preparando-se para a sua problemática aventura carecia de dinheiro.
O diploma financeiro de Mousinho causou pânico do Faial:
tomaram a valer o decreto e ninguém aceitava um maluco que fosse.
Foi preciso empregar medidas de coacção para pôr de lado o decreto e manter o uso desta moeda, como nas demais ilhas. Havia no entanto uma certa irritação pública. Desapareceram do mercado os géneros de 1ª necessidade... Reuniu-se a Câmara (sessão 04/12/1832) e achou que o caso só se remediaria com o resgate da referida moeda. No dia imediato, em presença dos principais proprietários, foi decidida a amortização, prestando-se todos a concorrer com um empréstimo colectivo em dinheiro de ouro e prata, que somou 4.867$875 reis.
A troca realizou-se imediatamente, nos dias 6 7 e oito - e os ânimos serenaram.
Na data em que a Cãmara da Horta efectuava a troca da moeda, o ministro Silva Carvalho decretava que os sobreditos malucos ficassem em circulação pelo valor de 40 reis, prometendo indemnizar da diferença os seus possuidores. Não indemnizou nada. Os tristes possuidores foram-se para o outro mundo na doce ilusão de mais este lôgro constitucional.

"Marcelino Lima" em Anais do Município da Horta
Última edição por António Ávila Braia em sábado nov 03, 2007 11:22 am, editado 1 vez no total.

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insvlano
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Mensagem por insvlano » sexta nov 02, 2007 11:20 pm

No fabrico oficial dos “malucos”, de acordo com a proveniência do bronze, encontramos 2 ou 3 tonalidades.
Os falsários recorriam aos mais diversos metais como é o caso desta rara moeda em cobre encontrada na ilha do Faial.

Cumprimentos,
M. Rodrigues

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narper
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Mensagem por narper » sábado nov 03, 2007 1:11 am

ml Escreveu:Maluco fico eu quando começo a ver estas moedas.
Subscrevo inteiramente.

Infelizmente ainda não deitei mão a nenhuma. :whocares

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rui_medeiros
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Mensagem por rui_medeiros » sábado nov 03, 2007 1:14 am

:erofl :erofl :erofl :erofl
Cumprimentos!
Rui Medeiros

jpamsantos
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Mensagem por jpamsantos » sábado nov 03, 2007 11:38 am

Moedas nada "Malucas" e excelente conjunto de tópicos sobre Angra e suas modas caro Rui aceite os meus cumprimentos e para lhe testemunhar o apreço aqui deixo:
http://www.acores.com/angradoheroismo/
para quem desejar conhecer melhor. :biggthumpup:
José Pedro

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rui_medeiros
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Mensagem por rui_medeiros » domingo nov 04, 2007 6:58 pm

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in Archivo dos Açores

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